Afluente – Ensaio Geral – Ato III – Casa de bonecas (live), de Alexandre Paulikevitch e MEXA
Nos dias 12 e 13 de dezembro, sexta e sábado, acontecerá a performance de 24 horas Casa de bonecas (live), de Alexandre Paulikevitch e MEXA. Este evento integra a programação de Afluentes, programas desenvolvidos por parceiros como parte da programação pública da 36ª Bienal fora do Pavilhão Ciccillo Matarazzo. O evento acontece das 21h de sexta até as 21h de sábado na Casa do Povo. Não há a necessidade de retirada de ingressos. Durante a apresentação ininterrupta de 24 horas, e entrada e saída do público é livre.
Um ombro que vira, deliberadamente; um olhar — sustentado, depois desviado. O cabaré começa não com uma fanfarra, mas com uma mudança leve de atenção: para o corpo, para seus códigos, para sua recusa em ficar na linha. Muitas vezes considerado “não sério o suficiente” para o teatro, o cabaré se tornou historicamente o espaço cênico da dissidência, da exploração do gênero e daquilo que não podia ser dito de outra maneira. Na Casa do Povo, o cabaré carrega sua própria linhagem — enraizada não só na história da Casa com o teatro político, mas também em tradições judaicas diaspóricas, nas quais sátira, canção e palco se tornaram formas de sobrevivência e crítica.
É neste contexto que surge o encontro singular de Alexandre Paulikevitch e do grupo MEXA. Fruto de uma longa troca entre as artistas, Casa de bonecas (live) é uma performance inédita de longa duração. Para a ocasião, foi construída uma casa temporária dentro do TAIB. Ao longo de 24 horas, as performers deverão conviver nesse espaço, espelhando a estrutura de um reality show, explorando a tensão entre a resistência ao tempo e a proximidade imposta. Elas recebem instruções na forma de rubricas teatrais que funcionam como provas. É o “grande irmão” que impulsiona a ação e leva as performers a repetirem tarefas e revelarem fragmentos de suas vidas para vencer o jogo. Práticas teatrais como chorar, decorar um texto, apresentar um número musical, se misturam como ocupações cotidianas, de modo a aproximar o espaço artístico do doméstico, perguntando desta forma quais são os lugares em que corpos dissidentes podem se sentir em casa.
O público pode entrar e sair livremente do teatro para acompanhar os acontecimentos por meio de projeções ao vivo ou de observações diretas. A cenografia revela e esconde, questionando aquilo que pode ser visto ou não. Neste ininterrupto cabaré, o entretenimento passa pela exaustão coletiva do corpo das performers. Os corpos se viram de costas, ou insistem em ser vistos; identidades passam a ser coreografias — improvisadas ou ensaiadas — com a sensação de que o teatro deve permanecer sempre inacabado — poroso ao desejo, ao ruído do presente. MEXA e Alexandre reivindicam no cabaré — esta forma nascida à margem das instituições, sempre exagerada demais, queer demais, alta demais – uma ocasião para ensaiar uma outra maneira de estarmos juntos.
Alexandre Paulikevitch nasceu e vive em Beirute. É um dos poucos homens a trabalhar a tradição do baladi — muitas vezes reduzido por um olhar colonial à “dança do ventre” — como gesto de resistência política. Formado em Teatro e Dança pela Universidade Paris VIII e discípulo de bailarinas icônicas do mundo árabe, Alexandre desfaz as camadas de orientalismo e homofobia que há muito tentam disciplinar essa dança. Seu trabalho abre espaço para a delicadeza como estratégia, a sensualidade como resistência, e a ambiguidade como verdade. Costuma se apresentar em museus, teatros e festas underground.
MEXA é um coletivo artístico ativo desde 2015 em São Paulo, surgido no contexto de abrigos e forjado na urgência e no descaso do Estado. O grupo explora as fronteiras entre realidade e ficção, autobiografia, documentário e teatro do real, criando performances, vídeos, fotografias e formas cênicas próprias. Desde 2016, é residente na Casa do Povo e apresenta trabalhos em importantes instituições e festivais. Cantando, dublando e performando suas histórias, o MEXA reinventa mitos pessoais e coletivos, fazendo da arte um espaço de afirmação, invenção e presença.
O Ato III tem apoio de Kaserne Basel (Basileia, Suíça) e Goethe-Institut São Paulo.
Sobre Ensaio geral
De muitas formas, o Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB) é um teatro submerso. Tendo funcionado dos anos 1960 até o final da década de 1990, ele se escondia no subsolo da Casa do Povo, um refúgio clandestino para imigrantes e ativistas, uma fortaleza de resistência durante a ditadura brasileira, um centro de performance experimental e um caldeirão das revoluções artísticas nos anos 1960 e 1970. Sua história é rica em teatro político e popular, coral e formas experimentais que sempre desafiaram os limites da performance, entre o amador e o profissional. Depois de uma inundação em 2000, o teatro ficou em silêncio por anos, e suas histórias ficaram submersas.
Ensaio geral é um programa de performance dentro da 36ª Bienal de São Paulo, desenvolvido e enraizado nesse mesmo espaço. O teatro não é apenas uma moldura, mas uma proposição: um convite para questionar e reimaginar o que o teatro pode ser, ensaiando-o em escala real, daí o nome do programa. Ensaio geral se concentra em práticas muitas vezes excluídas das histórias canônicas do teatro e dos palcos institucionais. Neste contexto, reabrir o TAIB não é só um ato de reivindicar o espaço, mas de se perguntar: o que é o teatro e o que ele pode fazer? É a inauguração de um teatro que ainda está por vir.
O programa é curado por Benjamin Seroussi (diretor artístico da Casa do Povo) e Daniel Blanga Gubbay (integrante da direção artística do Kunstenfestivaldesarts em Bruxelas).
O programa se divide em três atos:
Ato I nos dias 5 e 6 de setembro com Marcelo Evelin;
Ato II nos dias 16, 17 e 18 de outubro com Dorothée Munyaneza e Boxe Autônomo;
Ato II nos dias 12 e 13 de dezembro com Alexandre Paulikevitch e MEXA.
Serviço
Afluente – Ensaio Geral – Ato III – Casa de bonecas (live), de Alexandre Paulikevitch e MEXA
36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática
12–13 dez 2025
sex–sáb, 21h–21h
Casa do Povo
Rua Três Rios, 252, Bom Retiro
Próximo à estação Tiradentes do metrô
São Paulo, SP
durante a apresentação ininterrupta de 24 horas, e entrada e saída do público é livre
entrada gratuita