36ª Bienal de São Paulo encerra edição marcada pela expansão de formatos, territórios e formas de encontro
Ao longo de quatro meses, edição reuniu programação pública intensa e experiências de longa duração.
Com conceito criado pelo curador geral Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, em parceria com os cocuradores Alya Sebti, Anna Roberta Goetz e Thiago de Paula Souza, a cocuradora at large Keyna Eleison, a consultora de comunicação e estratégia Henriette Gallus, além dos cocuradores adjuntos André Pitol e Leonardo Matsuhei, a 36ª Bienal de São Paulo – Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática se inspira no poema “Da calma e do silêncio” da escritora Conceição Evaristo e se encerra neste domingo, 11 de janeiro.
“A 36ª Bienal de São Paulo foi uma oferta e um exercício de generosidade, gratidão e prática coletiva. Em vez de afirmar uma narrativa única, buscamos criar condições para que múltiplas vozes, tempos e experiências coexistissem sem hierarquias. As Invocações, os Afluentes, as Conjugações e os demais programas públicos mostram que a exposição não acontece apenas no espaço expositivo, mas nas relações que se constroem entre pessoas, lugares e saberes. Mas, acima de tudo, ousamos fazer uma exposição que coloca o amor e a humanidade no cerne, em uma época de extrema desumanização”, analisa Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador geral desta edição.
O compromisso com o acesso democrático à arte orientou boa parte das escolhas institucionais desta edição, da concepção da mostra aos programas públicos e educativos. Para Andrea Pinheiro, presidente da Fundação Bienal de São Paulo, esse trabalho reforça o papel histórico da instituição. “A 36ª Bienal foi pensada para acolher diferentes públicos, ritmos e formas de estar na exposição, consolidando nosso compromisso com o acesso democrático à arte. Ser uma Bienal gratuita e uma das maiores do mundo implica permitir que pessoas de diferentes lugares possam transitar por esse espaço, construir relações com a arte contemporânea e se reconhecer nela”, afirma.
Ao todo, a edição reuniu 120 participações artísticas no Pavilhão da Bienal e cinco participações na Casa do Povo, como parte de um programa com curadoria de Benjamin Seroussi e Daniel Blanga-Gubbay.
Invocações

Antes mesmo da abertura da exposição, a Bienal tomou forma por meio das Invocações, encontros curatoriais realizados em Marrakech, Guadalupe, Zanzibar e Tóquio. Esses encontros reuniram artistas, pensadores e agentes culturais, aprofundando investigações sobre humanidade, linguagem, espiritualidade, memória e território. As Invocações deram origem aos quatro volumes da publicação educativa, que passaram a orientar o projeto pedagógico da edição. Assista a vídeos das atividades no canal de YouTube da Fundação Bienal.
Programação pública

Durante os quatro meses de exposição, de 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026, a 36ª Bienal de São Paulo realizou diversas atividades, entre performances, conversas, leituras, sessões de cinema, encontros formativos, shows e ações interdisciplinares. Essas atividades transformaram o Pavilhão da Bienal em um espaço de permanência e convivência, estimulando percursos prolongados e múltiplas formas de participação do público ao longo do tempo.
Com a abertura da exposição, iniciou-se, também, o programa Conjugações, uma série de debates, encontros, performances e ativações realizadas ao longo dos quatro meses da mostra, em colaboração com instituições culturais de diferentes partes do mundo. O programa explorou como essas 15 organizações, situadas em diversas partes do globo, conjugam a noção de humanidade a partir de suas práticas cotidianas. Cada instituição convidada realizou um encontro em São Paulo, reunindo artistas, pensadores e públicos diversos, ativando conexões globais no contexto local do Pavilhão da Bienal e ampliando o entendimento da exposição como espaço de escuta, troca e articulação internacional. Assista a vídeos das atividades no canal de YouTube da Fundação Bienal.
Entre os destaques da programação pública esteve o Festival Bienal no Mangue, realizado no Pavilhão Ciccillo Matarazzo como um encontro que trouxe para a Bienal a força cultural, política e sonora do movimento manguebeat com shows de BUHR, Maciel Salú, Mundo Livre S/A e discotacagem de Paulete Lindacelva, dialogando diretamente com o conceito curatorial da 36ª Bienal ao afirmar conexões construídas a partir de territórios, deslocamentos e invenção coletiva.
Outro momento marcante foi a apresentação do concerto Filosofias do ser, da percepção e da expressividade do ser, criação do filósofo, artista e compositor Tanka Fonta, executado pela Orquestra do Theatro São Pedro, sob regência do maestro Carlos Moreno. A apresentação expandiu a dimensão sonora do trabalho homônimo apresentado por Fonta, transformando a instalação em uma experiência orquestral histórica.
A programação ainda se expandiu por meio dos Afluentes, desenvolvidos em parceria com instituições culturais no Brasil e no exterior. Na Casa do Povo, a Bienal apresentou performances e ações de Alexandre Paulikevitch, Boxe Autônomo, Dorothée Munyaneza, Marcelo Evelin e do MEXA, além de fotografias de Akinbode Akinbiyi. As ações realizadas nesta instituição parceira são exemplos dessa expansão, acolhendo atividades que dialogam de forma direta com os temas curatoriais da edição e ampliaram a presença da Bienal para além de seus limites físicos.
No âmbito da Temporada França–Brasil, a 36ª Bienal de São Paulo realizou o programa Fluxo de imagens / Imaginários como parte dos Afluentes, iniciativa que amplia o alcance da mostra por meio de parcerias institucionais. Desenvolvido em colaboração com a Cinémathèque Afrique, o programa partiu dos vínculos históricos entre Brasil, Caribe francês e países da África Ocidental para promover diálogos entre obras contemporâneas do continente africano, filmes históricos de seu acervo e produções de artistas do Brasil e do Caribe. Organizado em blocos curatoriais, o programa combinou exibições, conversas e performances, explorando a circulação de imagens e imaginários em sintonia com os temas centrais da 36ª Bienal. Os quatro programas temáticos foram apresentados no auditório do Pavilhão alternadamente aos domingos. O programa de filmes foi também exibido na La Friche la Belle de Mai, em Marselha.
Publicações

O projeto editorial da 36ª Bienal de São Paulo teve papel central e ganhou, nesta edição, uma dimensão inédita, com doze publicações. Pela primeira vez, a Fundação Bienal de São Paulo realizou a distribuição internacional de suas publicações educativas, em parceria com o Center for Art, Research and Alliances (CARA), ampliando o alcance do projeto pedagógico da Bienal para um público global. A série, composta por quatro volumes com uma tiragem global de 14.400 exemplares, corresponde a cada uma das Invocações realizadas nos meses que antecederam a exposição: Marrakech, Guadalupe, Zanzibar e Tóquio, e reflete sobre os contextos locais e as especificidades de cada um desses territórios. Complementam as publicações o catálogo da exposição, com tiragem de 6.500 exemplares, e uma coletânea que traz, por meio de ensaios e poesia, as bases conceituais da edição, com 4.000 cópias – todas com versões em português e inglês disponíveis para leitura e download de forma inteiramente gratuita no site da mostra e no portal da instituição, assim como as publicações das edições passadas.