Wolfgang Tillmans é um fotógrafo que explora formas de apresentação das imagens. A maneira de expor suas fotografias é tão importante quanto a matéria retratada, estabelecendo constelações que interferem no sentido umas das outras.
Além disso, as imagens de Tillmans vão além do registro documental: criam espaços de intimidade e conexão. Ao olhar para momentos cotidianos e seus vestígios, como uma sala após uma festa, a vista da janela de um avião, dobras em um papel, é como se o artista as transformasse em poesia visual. Assim, as imagens apenas sugerem, abrindo espaço para ambiguidade, interpretação e ressonância emocional.
Nesta itinerância da 36ª Bienal, Wolfgang apresenta duas fotografias: Nile [Nilo], de 2018, e Amazon Freight, Iquitos [Balsa Amazônica, Iquitos], de 2013. Cada uma delas possui 138 centímetros de altura por 210 de largura.
Nilo apresenta uma vista aérea do rio homônimo e seus diferentes percursos sobre um amplo terreno desértico. Esse rio é um dos mais extensos do mundo: nasce em Uganda, atravessa o nordeste da África e segue até o mar Mediterrâneo, desaguando no Egito. Na fotografia, o Nilo atravessa em diagonal, como uma faixa preta e sinuosa, e se divide em diferentes braços. Em alguns trechos, esses braços se afastam e voltam a se aproximar, formando linhas escuras e irregulares sobre a paisagem. Ao redor do rio, estende-se um amplo terreno desértico, em diferentes tons de bege, marrom, preto e azul acinzentado, que insinuam as distintas altitudes e vegetações.
A segunda fotografia, Balsa Amazônica, Iquitos retrata uma embarcação carregada de mercadorias em Iquitos, na Amazônia peruana. Iquitos não possui ligação rodoviária com o restante do Peru; é uma cidade fundada sobre as águas, o que faz dos rios as principais vias de circulação e transporte. Justamente em Iquitos está situado o porto fluvial mais importante do país, que se comunica pelo rio Amazonas com outras cidades da selva, como Letícia na Colômbia e várias cidades no Brasil, incluindo Manaus e Belém, até chegar ao Oceano Atlântico.
A foto apresenta uma vasta extensão de água que preenche todo o primeiro plano. A superfície da água possui ondulações e reflete o céu acinzentado, encoberto por nuvens. Mais ao fundo, uma grande balsa de carga ocupa quase toda a largura da imagem. Sobre ela se acumulam volumes de diferentes tamanhos, como caixas, fardos e objetos cobertos por lonas brancas, azuis e escuras. No canto direito, aparece parte da estrutura da própria embarcação. Detrás da carga há uma faixa estreita de vegetação, e acima o céu nublado complementa o conjunto fotografado.
As duas imagens apresentadas por Tillmans nesta itinerância evocam a água em diferentes localidades e as maneiras pelas quais ela se mistura e influencia a experiência humana, de forma onipresente. São fotos que envolvem rios, corpos d’água, mares e oceanos. Nos lembram que a humanidade foi criada a partir da nossa relação com as águas e que elas são agentes centrais em nossa história.