Wolfgang Tillmans explora outras formas de apresentação das imagens. A maneira de expor suas fotografias é tão importante quanto a matéria retratada, estabelecendo constelações que interferem no sentido umas das outras. Conhecido também por suas contribuições para a cultura pop – como a capa do álbum Blond, de Frank Ocean –, suas fotos estão inscritas num imaginário universal do que é ser jovem.
Suas imagens vão além do registro documental: criam espaços de intimidade e conexão. Ao olhar para momentos cotidianos e seus vestígios, como uma sala após uma festa, a vista da janela de um avião, dobras em um papel, Tillmans os transforma em poesia visual. As imagens sugerem, abrindo espaço para ambiguidade, interpretação e ressonância emocional.
Nesta itinerância da 36ª Bienal, Wolfgang apresenta uma videoinstalação inédita, criada especialmente para esta edição, chamada Watching a minute for a minute: Assistindo a um minuto por um minuto.
Dentro de uma sala escura, duas paredes perpendiculares se transformam em grandes superfícies de projeção de fotografias e vídeos do artista. Aqui as imagens são apresentadas de forma isolada ou em combinações de pares, trios e fusões, alternando fotografia e vídeo.
Vemos, por exemplo, peixes sobre a lama, um córrego que atravessa a floresta e, em seguida, uma cidade à beira-mar vista do alto, com prédios altos cercados pelo azul do oceano. Um molusco rosado repousa na areia, enquanto hastes de ferro sugerem paisagens de construção ou demolição.
A matéria retorna em diferentes estados: barro acumulado sobre uma bota de plástico, superfícies de terra úmida, um fio de água que escorre por rochas. Em seguida, rios descem pela encosta de uma montanha, e um céu alaranjado acolhe uma meia-lua que se desloca lentamente. Ao fundo, escutamos água corrente, pássaros e uma voz em inglês que menciona a rotação da Terra em tempo real.
A lua se põe, o som se interrompe, e um tique-taque marca a passagem do tempo. Novas imagens surgem: uma rocha vista de perto, com ranhuras e variações de cor; um ramo de folhas verdes brotando de um muro de concreto grafitado; um relógio de ponteiro acompanhado pelo som da respiração humana.
A paisagem urbana retorna sob a chuva noturna. Vemos a cidade através do vidro de um carro em movimento, com as luzes borradas pela água. Em seguida, a câmera se aproxima de objetos e superfícies: troncos na areia com o mar batendo, restos de plástico e vidro na praia, marcas circulares deixadas na areia.
O interior de um apartamento aparece iluminado por feixes de luz filtrados por cortinas. A sequência continua com trilhos de ferrovia, água jorrando de um cano, uma árvore em movimento ao vento, um córrego urbano, uma cachoeira de grande escala e rios que atravessam formações rochosas.
Entre esses fluxos, surgem também imagens do cotidiano: um limão no pé, tecidos coloridos pendurados em uma loja, um chão de terra seca, uma paisagem industrial, gotas de água sobre folhas verdes e o céu azul com nuvens dispersas.
Por fim, vemos o interior de um armário: objetos pessoais, fotografias, papéis, máscaras e superfícies metálicas, compondo uma espécie de inventário íntimo.
Cada registro, ao se encontrar, suceder ou fundir com o próximo, abre conexões inesperadas. A paisagem sonora é igualmente diversa, como quando sons da natureza misturam-se a ruídos de motor, ou camadas de música eletrônica se alternam com trechos de vozes que evocam cantos corais em inglês. O som não acompanha as imagens de forma literal, mas cria tensões, ressonâncias e contrastes inesperados.
As imagens evocam a água em diferentes estados físicos e como ela se mistura e influencia a experiência humana, de maneira onipresente. A instalação constrói, assim, uma arquitetura de imagens e sons em que o espaço físico e o espaço projetado se confundem. Aberta e processual, convida à atenção e à presença, estimulando a refletir sobre as formas como produzimos e compartilhamos imagens e sons no mundo de hoje.