Como você percebe o mundo ao seu redor? Para Tanka Fonta, os sentidos não limitam nosso entendimento da realidade – eles se entrelaçam. Já pensou em como um morcego percebe o mundo? Ou uma abelha?
A noção de sinestesia é central em sua obra. Para ele, cores conversam com sons, e sua prática como compositor se traduz também em pintura. Suas partituras podem ser lidas como representações auditivas do que se vê – e visuais do que se ouve.
Fonta apresenta um mundo feito de múltiplas realidades que se entrelaçam para formar aquilo que chamamos de “real”. Você já se perguntou se o que entende como azul é o mesmo que outra pessoa percebe?
O eletromagnetismo, ramo da física que estuda as interações entre cargas e campos elétricos e magnéticos, oferece outra chave para pensar as relações entre seres. O que sentimos diante das cores – calor, frio, alegria, raiva – revela como a realidade se transforma conforme os sistemas cognitivos interpretam pulsos elétricos. São essas decodificações que nos permitem chamar algo de “mundo”.
O núcleo da obra de Fonta se organiza em um espaço expositivo com três estações de escuta, cada uma com fones de ouvido. Nelas, o público pode ouvir três peças orquestrais em sete movimentos, gravadas pela Orquestra do Theatro São Pedro no Teatro Cultura Artística, sob regência de Carlos Moreno. As composições reúnem cordas (violinos, violas, violoncelos, contrabaixo), madeiras e metais, entrelaçados a percussões como tímpanos, congas, djembes e sinos, além de violões, berimbau, alaúde africano e zanza. Camadas vocais, corais e solos completam o conjunto, criando uma paisagem sonora que oscila entre o cerimonial e o meditativo.
Em diálogo com essa dimensão auditiva, um mural de grande escala em acrílica ocupa toda a coluna central do Pavilhão da Bienal. Estruturado em seis constelações temáticas, combina formas abstratas, símbolos interligados, espirais, linhas e campos cromáticos intensos que evocam criação, filosofia e a relação entre humanidade e natureza. Vermelhos e laranjas vibrantes contrastam com azuis profundos e áreas brancas luminosas, gerando atmosferas dinâmicas que lembram tanto paisagens cósmicas quanto fluxos energéticos. Mais que uma imagem estática, o mural atua como cartografia visual da experiência sonora.
Entre os movimentos musicais, surgem gravações de leituras poéticas que funcionam como interlúdios, acrescentando densidade narrativa à escuta. Já o roteiro performático – escrito pelo artista como um diálogo ficcional entre inteligências humanas e vegetais – é apresentado em leituras ou encenações na programação pública da Bienal, ampliando a instalação e convidando a imaginar novas formas de relação com o mundo vivo.
Tente fechar os olhos e ouvir a sinfonia composta por Tanka. O que você vê?