A respiração une todos os seres, dos mais microscópicos aos mais complexos. Será que os prédios também respiram?
Para a 36ª Bienal de São Paulo, Simnikiwe Buhlungu apresenta Progênies de Tubos Ventilados em Outro Alhures, 2025, uma adaptação site-specific do projeto continuum de longo tempo pulmão tempo!!! (um conver-algo), realizado em 2024 no Kunst im Tunnel, em Düsseldorf.
Esta versão da obra é composta por tubos de ventilação que se estendem a partir do teto do Pavilhão até 2 metros acima do chão, conectando-se aos mecanismos circulatórios do edifício, cuja ventilação permite que diversas formas de encontro, percepção e escuta ocorram dentro de sua arquitetura. Além disso, esses tubos metálicos remetem à consciência e ao funcionamento de uma estrutura física, bem como à sua capacidade de falar, questionar, propor ou existir em zonas de ambiguidade.
Interessada na produção de conhecimento, como ele é gerado, por quem e de que maneira se dissemina, Simnikiwe investiga fenômenos sócio-históricos e cotidianos ao navegar por essas perguntas e suas infinitas possibilidades de resposta. Em projetos recentes, ela tem se debruçado sobre a questão de como saber se algo invisível está presente entre nós.
Segundo a artista, a respiração/ventilação são condições pelas quais os fenômenos são capazes de retomar/começar/pausar/pensar. Ouvir pode ser entendido como uma forma de construir uma pesquisa. Ela também pensa na escuta em termos de síntese, como sinais eletrônicos: o fato de que, ao ouvir uma música, você pensa nela como uma canção, mas, na verdade, está ouvindo matemática, física.
Na obra, quatro tubos metálicos, com alturas que chegam a aproximadamente cinco metros, descem do teto do Pavilhão e surgem de modo inesperado no espaço, em curvas e ângulos distintos. Como extensões visíveis da própria estrutura física do edifício, cada tubo é ligado a um sistema independente que faz o ar circular em tempos diferentes, produzindo um ritmo sincopado de sopros, assobios e pausas.
Os tubos possuem bocais como os de flautas, criados especialmente para eles, e bombas de ar ligadas a uma composição musical. Eles funcionam como tubos de órgãos, bombeando o ar de maneira rítmica para dentro deles e direcionando o ar presente no assoalho do Pavilhão para dentro dos tubos. Esse som é amplificado e devolvido ao espaço expositivo.
O aço cru, inicialmente cinza, vai se transformando lentamente em contato com o ar e com a respiração dos visitantes, adquirindo tons de ferrugem. Esse processo evidencia a vulnerabilidade da matéria e a passagem do tempo.
Entre som, arquitetura e presença, a instalação cria uma respiração coletiva, em que corpos humanos e não humanos compartilham o mesmo gesto vital e se transformam mutuamente.