36ª Bienal de São Paulo
Nem todo viandante anda estradas
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6 set 2025–11 jan 2026
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Precious Okoyomon

Publicado em 25 ago, 25
bienal · #36bienal | audioguia | Precious Okoyomon

Começamos pela obra Sun of Consciousness. God Blow Thru Me – Love Break Me [Sol da Consciência. Deus sopra através de mim – o amor me quebra] (2025), de Precious Okoyomon. Esta é uma instalação site specific, comissionada especialmente para esta edição da Bienal.

Você se encontra no meio de um imenso jardim. Há uma grande variedade de plantas, musgos, cheiros e sons ao seu redor. Caminha por uma plataforma com subidas e descidas. Avista lagos por perto. Sabe que essa instalação não será a mesma quando voltar: ela está viva e permite entrar em outro tempo. Que sensações esse lugar desperta em você? Consegue ver seu reflexo nas águas turvas dos lagos? Quando olha no espelho, vê apenas a si ou também todos os outros seres que coabitam este ambiente com você?

Precious discute outros tempos situados fora do tempo humano. Elu chama esses tempos não humanos de portais. Estuda as plantas e as relaciona a diferentes tipos de temporalidade – algumas remetem a espécies amplamente usadas na colonização, como a cana-de-açúcar, base das plantations, sistemas agrícolas voltados à exploração de monoculturas. Esses tempos evocam momentos sombrios. Precious lida com a dualidade entre o belo e o tenebroso, entre a perversidade disfarçada e outro tipo de tempo, que floresce em formas de vida com as quais precisamos conviver – e das quais também podemos aprender a viver.

Precious trabalha com arte, mas também com poesia, jardinagem, comida e filosofia. A dimensão sonora desta obra é fundamental. Você ouve uma paisagem desenvolvida por pode ser desligado, a partir de gravações feitas no próprio Parque Ibirapuera.

Diferentes texturas sonoras foram esticadas, torcidas e alteradas, friccionando frequências e ficcionalizando a escuta – assim, camadas que escapam no momento da gravação emergem. Uma frequência aguda contínua funciona como uma cortina que separa a obra das demais e, ao mesmo tempo, evoca a presença da água. Em contraponto, frequências graves criam um chão vibrante, como um portal sonoro que faz a vibração ser sentida no corpo. Essas manipulações alteram o ritmo da realidade dentro da obra, criando uma sensação de tempo suspenso.

A instalação ocupa o espaço expositivo com uma topografia irregular: entre blocos de pedras e raízes expostas, montes de terra se elevam e se desfazem em caminhos espiralados. Entre esses relevos, surgem pequenas quedas d’água e lagos, enquanto áreas cobertas de musgo convidam ao repouso. O visitante atravessa o ambiente por passagens irregulares, que alternam trechos suaves e áreas mais acidentadas, revelando diferentes ritmos de encontro e interação com o espaço.

A luz também é protagonista nessa paisagem. Em colaboração com o artista e pesquisador Seth Riskin, Okoyomon cria fenômenos atmosféricos que lembram halos, arco-íris e sub-sóis. Eles aparecem e desaparecem conforme a umidade do ar e o movimento do público, criando e desfazendo atmosferas em ciclos efêmeros. Nesse jardim vivo, onde pedras, água, plantas e luz se entrelaçam, a experiência se torna um convite ao descanso e à escuta, mas também à consciência de que o mundo natural opera em ritmos mais amplos do que o humano.

Entre as plantas presentes, há espécies medicinais, comestíveis e invasoras. Elas vêm das Américas, do Caribe e, sobretudo, do Cerrado – como o capim rabo-de-burro, o olho-de-cabra, além do urucum e do mandacaru. A flora do Cerrado se caracteriza por sua diversidade e pela adaptação a longos períodos de seca. As árvores são tortuosas, com raízes profundas. A noção de adaptabilidade pode ser uma chave importante para pensarmos nossa convivência enquanto humanidade.

Você também pode encontrar algumas pelúcias espalhadas pelo local. Elas remetem ao aspecto calmo, porém obscuro, desses espaços. Para Precious, sofrimento e alegria acontecem de modo síncrono. Sua versão de paraíso possui frutas exuberantes, mas venenosas. A artista se situa entre dois mundos: o da beleza da natureza e o da escuridão da história. Às vezes, a distância entre eles parece infinita, mas o essencial é o presente.

Sol da Consciência é também o título do primeiro ensaio de Édouard Glissant, filósofo martinicano cujas ideias inspiram esta Bienal. Nele, discute-se opacidade, mundialização, colonialismo e crioulização. A noção de mundialização refere-se a uma visão de globalização que valoriza a diversidade cultural e a relação entre diferentes povos, em oposição a uma visão hegemônica e uniformizadora. O título da obra de Precious também evoca pesquisas recentes sobre a possibilidade de o sol ser consciente. Huping Hu e Maoxin Wu propuseram uma explicação matemática da consciência baseada no spin quântico – propriedade das partículas subatômicas. Eles sugerem que a consciência pode ser uma característica fundamental do próprio universo, surgindo das interações entre esses spins. Segundo eles, a consciência estaria ligada ao emaranhamento quântico e ao processamento de informações nos níveis mais profundos da realidade. Seriam as plantas e todos os seres – até os mais microscópicos – que encontramos nesta obra, conscientes?

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O título da 36ª Bienal de São Paulo, "Nem todo viandante anda estradas", é formado por versos da escritora Conceição Evaristo
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O título da 36ª Bienal de São Paulo, "Nem todo viandante anda estradas", é formado por versos da escritora Conceição Evaristo
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