Na instalação de Mansour Ciss Kanakassy, artista senegalês radicado em Berlim, nos encontramos em um ambiente bastante diferente dos demais desta itinerância da 36ª Bienal: uma agência bancária.
A instalação Gondwana, la fabrique du futur [Gondwana, a fábrica do futuro] (2025) ocupa um espaço retangular, com três paredes pintadas em azul escuro.
O título do projeto remete ao supercontinente Gondwana, que reunia a maior parte das terras que hoje compõem os continentes do hemisfério sul, além da Índia no hemisfério norte. Sua fragmentação se deu por meio da separação entre a América do Sul e a Antártida, e entre a Antártida e a Austrália. Assim, a ideia de união entre povos colonizados se sobrepõe ao conceito estritamente econômico.
A instalação se organiza como uma agência bancária ficcional. No centro, um balcão de atendimento recebe o visitante. O balcão é preto e nele está escrito, em letras brancas, “Bem-vindo”. A frase é acompanhada de uma logomarca circular, com o continente africano no centro, e da legenda “Laboratório de Desberlinização”, escrita tanto em português quanto em francês. Sobre esse balcão estão diversas notas fictícias do “Gondwana – Central Banco do Quilombo”, cada uma com o rosto de uma personalidade negra estampada. Essas notas são chamadas Afroquilombos.
Como escreve Billy Fowo no catálogo desta Bienal:
“Para além do seu simbolismo, este gesto é político, pois alude a uma moeda futurista, independente e livre dos mercados globais de câmbio internacional, normalmente determinados por especulações de demanda e oferta e regulados por fatores econômicos como inflação, taxas de juros e eventos sociopolíticos.”
Atrás do balcão de recepção, na parede ao fundo, uma grande imagem de um céu azul com nuvens em tons degradê – do azul ao laranja – se sobrepõe ao fundo azul. Sobre essa imagem estão as seguintes palavras, escritas em letras brancas: “Quilombo Central Bank, Gondwana, The factory of the future, a fábrica do futuro, bem-vindo”.
À esquerda, um painel luminoso apresenta uma tabela de câmbio do Afro Quilombo Bank, em diferentes línguas identificadas por bandeiras nacionais. Na mesma parede, há dois mapas e uma placa. O primeiro mapa é intitulado “Gondwana”, e apresenta a imagem do continente sul-americano e africano unidos, como em Gondwana, há centenas de milhares de anos. No segundo, um mapa-múndi, os países e continentes são apresentados na cor cinza claro, contra um fundo branco. A América do Sul está levemente na transversal, aproximando-se da África. Apenas o Brasil está pintado de verde, destacando-se em relação aos demais. Nessa parede há também uma placa, que simula uma cédula de dinheiro. No topo está escrito “United States of Africa”, “A protoype currrency for all of Africa” [um protótipo de moeda para toda a África]. No centro, há a imagem do rosto de um elegante homem negro vestindo terno e gravata ao lado de um palácio. Abaixo, o número 50 – “cinquenta Afro”.
À direita, um caixa eletrônico cinza-metálico, identificado como Quilombo Express, completa a cenografia, aproximando a instalação da experiência cotidiana de um banco. Ao lado dele, um grande mural adesivado traz um mapa na projeção de Mercator com cinco relógios de parede alinhados. O conjunto evoca o ambiente de agências financeiras internacionais, cada relógio marcando diferentes fusos horários e remetendo à ideia de circulação global: Salvador da Bahia, Cidade do Benin, Mumbai, São Paulo e Dacar.
As menções ao conceito de “desberlinização” se vinculam a um projeto de longo prazo, o Laboratório de Desberlinização, criado em 2001 pelo artista em referência à primeira Conferência de Berlim (1884–1885), quando governantes europeus redesenharam as fronteiras do continente africano, ignorando os interesses das populações locais e instaurando novas formas de violência colonial. Nesse contexto, Mansour produziu a moeda-obra Afro (2001), concebida como protótipo de uma moeda pan-africana em resposta à divisão colonial. Essa proposta ganha nova vida nesta Bienal com o Afroquilombo.
Em Gondwana, a fábrica do futuro, o artista nos recorda da experiência entediante ou absurda da vida sob o sistema capitalista – como a tediosa tarefa de ir ao banco – e de como, mesmo em espaços institucionalizados, é possível encontrar brechas para a liberdade e a criação de novos mundos.