O desejo de fuga nasce da imaginação, que permite visualizar outras realidades possíveis. Manauara Clandestina, ao sair de Manaus e mudar-se para São Paulo, percebeu a potência da migração como porta para um novo mundo. O estado de espírito de estar em constante deslocamento, seja ele espacial ou corporal, influencia muito sua obra. Para Manauara, a migração é também uma estratégia de sobrevivência e tecnologia que possibilita a vida da população trans. Em sua prática, imaginar outros futuros implica criar caminhos possíveis diante de um presente atravessado pela violência. Rotas de fuga, alianças e formas de solidariedade aparecem, assim, como estratégias de continuidade da vida.
Manauara trabalha também com o upcycling, o reúso de peças de roupa que podem se transformar em outra coisa. Em seu trabalho, o estado de transformação da matéria pode ser pensado como metáfora para a transformação do corpo e da humanidade: como podemos melhor usar e reusar nossos recursos antes que acabem? O que consideramos descartável?
Nesta itinerância da 36ª Bienal, Manauara apresenta a instalação Transclandestina 3020, composta por um vídeo com cerca de 20 minutos de duração e duas assemblages têxteis, ou esculturas feitas a partir da combinação e transformação de diferentes peças de roupa e tecidos.
O filme, exibido num televisor, se passa em uma cidade industrial do futuro. Nela, travestis trabalham em um escritório imaginado como ministério e se preparam para um desfile que efetivamente culminou na abertura da 36ª Bienal.
A narrativa começa com créditos e imagens sobrepostas de um bairro industrial, com chaminés, fumaça espessa e conjuntos de casas humildes. Tons de cinza dominam a paisagem. Surge então o rosto de uma pessoa de cabelos curtos e escuros, que sorri discretamente. A imagem tem textura de fita antiga, com pequenas ranhuras, e um canto ecoa ao fundo.
Em seguida, aparecem pessoas vestindo as assemblages têxteis da artista – tecidos laranja e verde com faixas refletivas. Uma mão entra diante da câmera, como se conduzisse um desfile. Duas pessoas se aproximam, vestidas com as peças; trocam beijos e abraços demorados. Uma terceira se junta a elas, ajoelha-se e envolve as duas num gesto de afeto coletivo. Todas sorriem. O rosto de cabelos pretos retorna, criando um movimento entre intimidade e afirmação.
As imagens reaparecem sob a narração de um telejornal. A voz anuncia as “Transclandestinas” como uma grande novidade, algo de que “não se fala de outra coisa”. Entre depoimentos de pessoas entrevistadas, aparece uma pessoa sendo detida – um contraste entre espetáculo midiático e violência cotidiana.
O cenário então se desloca para uma fábrica de parede de tijolos. Dela sai uma pessoa vestindo a roupa. Em um descampado, ela e outras se juntam e caminham com firmeza. Surge o aviso escrito: “atenção: 15 minutos para o toque de recolher”. Algumas têm os olhos vendados por retalhos de tecido, e dentre as imagens aparece um poste onde lê-se “vende-se terreno em Marte”. Na sequência, grafitado num muro, lê-se: “Transclandestina 3020 – a única saída”.
É nesse contexto que conhecemos Ica. À noite, em meio à paisagem industrial, ela se encontra com outra pessoa atrás de um muro. Conta que está fugindo da polícia e do toque de recolher. A pessoa leva Ica à sua casa, o Polly Bar, conduzido por Polly, uma travesti mais velha que a acolhe com firmeza. O bar é apresentado como espaço seguro. Polly repreende quem estava na rua e conduz Ica para dentro, lembrando que ali é refúgio.
Ica adormece. Ao acordar, aparece de braços dados com Polly em um descampado. Ica embarcará no Expresso Transclandestina e, enquanto isso, Polly compartilha sua história – a gravidez de seu companheiro, a perda e a impossibilidade de despedida. Ica lamenta não ter conhecido antes aquela que chama de a última travesti da cidade. As duas se despedem e Polly orienta: ao chegar, vá direto ao Ministério Trans de Imigração.
Ica então observa uma nova cidade. O Ministério é o prédio da Bienal de São Paulo. Ela sobe as escadas circulares, onde uma fila de pessoas vestidas com as roupas confeccionadas por Manauara aguardam com impaciência. Digitais são coletadas, arquivos e computadores se acumulam. A burocracia se apresenta como rito de passagem.
Deitada em uma maca, Ica recebe um óculos sobre os olhos, com a orientação de que a experiência imersiva durará apenas alguns minutos. O filme se abre então para imagens reais do desfile-performance realizado na abertura da Bienal. Ao final, Ica retira os óculos retornando da travessia.
Entre a fuga, o abrigo e a reinvenção, o vídeo imagina um futuro possível, em que a clandestinidade se transforma em passagem e o desfile em afirmação de existência.
As assemblages têxteis, por sua vez, retomam as roupas criadas para esse universo ficcional e para o desfile-performance, reunindo tecidos reutilizados, palavras e inscrições pintadas. Cada escultura pende de uma barra presa ao teto por cordões laranja. Outro cordão laranja desce verticalmente a partir das peças e alcança o piso, onde permanece solto, formando uma volta.
A primeira assemblage, vista de frente, se assemelha a um estandarte retangular vertical. Predominam tecidos azul-escuros, amarelos e laranja-avermelhados. A porção azul ocupa a parte superior e central, atravessada por palavras e frases pintadas em amarelo, como “lugar de deriva”. Na porção inferior, o tecido laranja-avermelhado é preenchido de novas inscrições em prata com contornos azuis. Por todo a peça, diferentes retalhos se sobrepõem e pendem em tamanhos e alturas variadas.
A segunda assemblage reúne diferentes peças de roupa e retalhos sobrepostos, em cores variadas, como amarelo, azul, vermelho, preto, rosa e branco. Entre os materiais, aparecem tecidos lisos, listrados e partes de uniformes. As peças pendem em diferentes alturas e direções, formando uma composição quase quadrada. A justaposição das roupas e retalhos permanecem visíveis, relembrando-nos da transformação de roupas já existentes em uma nova estrutura têxtil.
Em conjunto, Transclandestina 3020 se apresenta como um pós-desfile suspenso no tempo e no espaço: roupas e imagens permanecem como corpos presentes e dissidentes, atuando como extensões vivas que guardam e atualizam memórias de travessias, alianças e processos de transição. Entre performance, moda e instalação, Manauara projeta futuros forjados na precariedade transformada em potência política e estética.