36ª Bienal de São Paulo
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Manauara Clandestina

6:01
Publicado em 30 mar, 26
bienal · #36bienal | audioguia | Manauara Clandestina | Brasília

O desejo de fuga nasce da imaginação, que permite visualizar outras realidades possíveis. Manauara Clandestina, ao sair de Manaus e mudar-se para São Paulo, percebeu a potência da migração como porta para um novo mundo. O estado de espírito de estar em constante deslocamento, seja ele espacial ou corporal, influencia a obra de Manauara. Para ela, a migração é também uma tecnologia que possibilita a vida da população trans, como uma estratégia de sobrevivência.

Manauara trabalha também com o upcycling, o reúso de peças de roupa que podem se transformar em outra coisa. Esse estado de transformação da matéria pode ser pensado como metáfora para a transformação do corpo e da humanidade: como podemos melhor usar e reusar nossos recursos antes que acabem? O que consideramos descartável?

Nesta itinerância da 36ª Bienal, Manauara apresenta a obra Transclandestina 3020, vídeo com cerca de 20 minutos. O conteúdo é exibido num televisor, em frente a uma parede prateada. 

O filme se passa em uma cidade industrial do futuro, onde travestis trabalham em um escritório imaginado como ministério e se preparam para um desfile que culminou na abertura da 36ª Bienal. 

No vídeo, a narrativa começa com créditos e imagens sobrepostas de um bairro industrial, com chaminés, fumaça espessa e conjuntos de casas humildes. Tons de cinza dominam a paisagem. Surge então o rosto de uma pessoa de cabelos curtos e escuros, que sorri discretamente. A imagem tem textura de fita antiga, com pequenas ranhuras, e um canto ecoa ao fundo.

Em seguida, aparecem pessoas vestindo as assemblages têxteis da artista – tecidos laranja e verde com faixas refletivas. Uma mão entra diante da câmera, como se conduzisse um desfile. Duas pessoas se aproximam, vestidas com as peças; trocam beijos e abraços demorados. Uma terceira se junta a elas, ajoelha-se e envolve as duas num gesto de afeto coletivo. Todas sorriem. O rosto de cabelos pretos retorna, criando um movimento entre intimidade e afirmação.

As imagens reaparecem sob a narração de um telejornal. A voz anuncia as “Transclandestinas” como uma grande novidade, algo de que “não se fala de outra coisa”. Entre depoimentos de pessoas entrevistadas, aparece uma pessoa sendo detida – um contraste entre espetáculo midiático e violência cotidiana.

O cenário então se desloca para uma fábrica de parede de tijolos. Dela sai uma pessoa vestindo a roupa. Em um descampado, ela e outras se juntam e caminham com firmeza. Surge o aviso escrito: “atenção: 15 minutos para o toque de recolher”. Algumas têm os olhos vendados por retalhos de tecido, e dentre as imagens aparece um poste onde lê-se “vende-se terreno em Marte”. Na sequência, grafitado num muro, lê-se: “Transclandestina 3020 – a única saída”.

É nesse contexto que conhecemos Ica. À noite, em meio à paisagem industrial, ela se encontra com outra pessoa atrás de um muro. Conta que está fugindo da polícia e do toque de recolher. A pessoa leva Ica à sua casa, o Polly Bar, conduzido por Polly, uma travesti mais velha que a acolhe com firmeza. O bar é apresentado como espaço seguro. Polly repreende quem estava na rua e conduz Ica para dentro, lembrando que ali é refúgio.

Ica adormece. Ao acordar, aparece de braços dados com Polly em um descampado. Ica embarcará no Expresso Transclandestina e, enquanto isso, Polly compartilha sua história – a gravidez de seu companheiro, a perda e a impossibilidade de despedida. Ica lamenta não ter conhecido antes aquela que chama de a última travesti da cidade. As duas se despedem e Polly orienta: ao chegar, vá direto ao Ministério Trans de Imigração.

Ica então observa uma nova cidade. O Ministério é o prédio da Bienal de São Paulo. Ela sobe as escadas circulares, onde uma fila de pessoas vestidas com as roupas confeccionadas por Manauara aguardam com impaciência. Digitais são coletadas, arquivos e computadores se acumulam. A burocracia se apresenta como rito de passagem.

Deitada em uma maca, Ica recebe um óculos sobre os olhos, com a orientação de que a experiência imersiva durará apenas alguns minutos. O filme se abre então para imagens reais do desfile-performance realizado na abertura da Bienal. Ao final, Ica retira os óculos retornando da travessia.

Entre a fuga, o abrigo e a reinvenção, o vídeo Transclandestina 3020 imagina um futuro possível, em que a clandestinidade se transforma em passagem e o desfile em afirmação de existência.

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