Lidia Lisbôa nasceu na Vila Guarani, uma comunidade no interior do estado do Paraná, e desde então se reinventa. Sua pesquisa artística frequentemente se desdobra em uma reconstrução sensível da memória e de um corpo anterior ao momento presente, explorando múltiplos suportes, como escultura, desenho, instalação e performance, em um entendimento ampliado do que é a costura.
O nascimento e a transformação são temas recorrentes em seus trabalhos, cujos títulos caminham por palavras como “útero” e “casulo”. Nesta itinerância da 36ª Bienal, Lidia Lisboa apresenta a série Tetas que deram de mamar ao mundo, uma homenagem às mulheres que amamentam e à maternidade. São duas esculturas têxteis confeccionadas em crochê, desenvolvidas em 2025. Cada peça possui forma, cor e dimensões próprias, mas ambas formam grandes volumes que evocam seios e mamilos em escala ampliada. As peças estão suspensas por alças, também confeccionadas em crochê. As tramas são compactas e densas, com algumas áreas mais soltas, de onde brotam pontas de tecido e emendas que permanecem visíveis.
Na primeira escultura, a trama se abre em uma forma larga na parte superior e se afunila em direção ao chão. Predominam três listras horizontais, pretas nas extremidades e cinza ao centro. Fios pretos partem das extremidades superiores e mantêm a peça suspensa. A parte inferior termina em uma pequena ponta junto ao piso, também na cor preta.
Na segunda escultura, a trama também se abre em uma forma larga na parte superior e se afunila em direção ao chão. A parte superior é formada por uma faixa larga em tons de cinza. Abaixo dela, uma grande área preta ocupa o centro da peça. Da parte inferior desse volume desce uma ponta alongada de cor branca, que se estreita gradualmente e termina em um pequeno emaranhado próximo ao piso. Fios compridos partem das extremidades superiores e mantêm a obra suspensa.
No espaço expositivo, as peças se apresentam como monumentos ao cuidado e à nutrição, mas também à força coletiva inscrita no fazer manual. Por um lado, o gesto repetitivo e paciente do crochê, prática transmitida majoritariamente por mulheres ao longo das gerações, evoca memória, afeto e construção de identidade. Por outro, a escala amplia uma parte íntima do corpo até transformá-la em uma presença monumental, impossível de não ser notada, indissociável do mundo.