Na instalação em vídeo Unity for Nostalgia [Uma unidade para a nostalgia] (2025), Korakrit Arunanondchai reconceitua os fantasmas como metáforas de narrativas sócio-históricas reprimidas, transformando o gênero de terror asiático em ferramenta para refletir sobre identidade cultural, tensões pós-coloniais e desejo de conexão. O artista, que interpreta a si mesmo, viaja à Tailândia em busca de comunhão com sua cultura de origem, figurada como um fantasma — entidade espectral que concentra memória cultural e poder simbólico, atravessando fronteiras entre corpo e imaterialidade, performer e público, ritual e obra.
Filmado em um cinema abandonado na cidade de Lopburi, tomado por colônias de macacos venerados como ancestrais espirituais, o trabalho evoca essas presenças como protagonistas. Nesse cenário, o fantasma surge como alegoria das histórias silenciadas, das marcas coloniais e da própria cultura como força que necessita de corpos para persistir. O calor opera como metáfora do espírito, enquanto câmeras cinematográficas e térmicas — usadas tradicionalmente na captura de espectros — se combinam para acentuar o clima de assombro. Em uma cena, uma estátua do artista feita de pão é devorada pelos macacos, reiterando a dissolução de limites entre matéria, ritual e mito.
A instalação ocupa uma sala fechada, estruturada em torno de duas arquibancadas: uma destinada ao público, outra preenchida por bonecos de pelúcia, que sugerem espectadores ausentes e configuram uma plateia duplicada e espectral. Entre ambas, uma tela translúcida funciona como limiar entre mundos. Em diferentes momentos, ela projeta narrativas fragmentadas de sonhos, rituais e paisagens pós-apocalípticas, até se dissolver na escuridão, ativando feixes de luz que tingem o espaço como atmosfera poluída, névoa densa de máquinas de fumaça e sons graves com vozes em oração que reverberam no corpo do visitante.
Entre mitologias locais e referências pop, destacam-se a fênix, símbolo de morte e renascimento, e o macaco mítico de cinco olhos e quatro orelhas, criatura que devora brasas incandescentes e excreta ouro. Esses elementos dialogam com memórias políticas recentes da Tailândia, evocando tanto promessas de renovação coletiva quanto espectros do nacionalismo e das disputas de poder.
Ao atravessar esse espaço imersivo, o visitante participa de um ritual em que cinema, instalação e performance se fundem. Uma unidade para a nostalgia constrói uma paisagem de assombro e esperança, em que das ruínas emergem possibilidades de recompor futuros coletivos ainda por imaginar.