A obra de Julianknxx não se fixa. Seu trabalho atravessa geografias, línguas e gestos, construindo um arquivo em trânsito no qual cada voz ressoa como parte de um grande coro. Pensar seu trabalho é pensar diretamente nas raízes culturais da África Ocidental, especialmente Serra Leoa, de onde o artista veio. Em filmes, instalações e performances, Julianknxx não busca um testemunho único, mas um tecido de memórias e presenças que escapa às narrativas coloniais. Seu olhar não coleciona, escuta.
A noção de deslocamento é constantemente presente. O mar, as cidades portuárias, os corpos em espera ou em trânsito – todos atravessam sua obra como vestígios de um passado que nunca cessou de se movimentar. O oceano não é apenas cenário, mas personagem: um arquivo líquido que guarda traumas e possibilidades, que apaga rastros e, ao mesmo tempo, transporta-os. A Europa, em sua filosofia, não é um espaço fixo, mas uma paisagem instável, onde corpos negros reinventam o que significa pertencer.
Nesta itinerância da 36ª Bienal, Julianknxx apresenta o vídeo what colours can we dream in this night filled with salt?, de 2025. Em preto e branco, tem duração aproximada de onze minutos. Ao longo da obra, o corpo em cena se move em relação direta com o mar e o sal: dança, oscila e se contorce, colocando-se em relação de tensão, pertencimento e continuidade.
Logo no início, surge um letreiro com palavras escritas em inglês, que anunciam:
“Estou escutando em busca da próxima canção
Que se lembre de como sacudir o sal das minhas asas
Um modo do corpo devolver as frequências acumuladas”
As primeiras imagens mostram a superfície do mar. A luz do sol reflete na água, criando tons prateados e cinzentos em movimento contínuo. Na sequência, surge uma grande montanha branca. À sua frente, um lago imóvel amplia a sensação de vastidão da paisagem.
A câmera se aproxima das minas de sal. O branco domina a imagem, revelando texturas irregulares e cristais acumulados. Entre essas cenas, aparecem pessoas em paisagens naturais amplas e abertas. Vemos corpos em contato com a água, pessoas se banhando, crianças vestidas de branco.
Em alguns momentos, vestígios vermelhos contrastam com o sal branco, marcando a superfície da paisagem. Mulheres, meninas e crianças aparecem sobre montanhas de sal, também vestidas de branco. Elas seguram cordões que ligam umas às outras, formando linhas contínuas entre os corpos. Em seguida, surgem barcos sobre a água e homens pescando, em movimentos lentos e repetidos.
Ao longo de todo o vídeo, o artista narra em inglês e, então, um grupo de mulheres aparece; elas estão reunidas numa sala cantando em sua própria língua. Esse canto coletivo conduz o olhar e a percepção para além da superfície das imagens, convidando a imaginar as cores evocadas na pergunta que dá título à obra. O coro atravessa as imagens de paisagens naturais e retorna às meninas ligadas pelos cordões, que seguem presentes ao longo do vídeo.
Em uma das cenas finais, uma mulher com vestido branco esvoaçante dança sobre a montanha de sal. O tecido se move com o vento, acompanhando o ritmo do corpo e da paisagem ao redor.
Julianknxx se interessa tanto pela história do mundo como pela história cotidiana das pessoas que o compõem, interesse que tece o pano de fundo de sua narrativa. O coro, a palavra falada, a performance que se torna matéria – o artista entende a música como resistência, mas também como vestígio de algo maior: o som de quem nunca parou de se mover. Sua obra se inscreve na tradição oral africana e nos leva à seguinte questão: o que significa pertencer a um lugar quando os lugares são sempre atravessados por outras histórias?
A escrita de poemas é uma parte fundamental de seu processo criativo, uma ferramenta que não apenas embasa sua obra, mas a forma enquanto ele articula suas experiências e observa as realidades do mundo, transformando fragmentos de memória em novas formas de resistência. Sua prática desafia as hierarquias do arquivo ocidental, modificando a escuta em método radical e a fragmentação, em forma.
Julianknxx propõe uma escuta radical. Em sua obra, o passado e o presente friccionam-se, e a história não se revela como um relato estático, mas como algo que pulsa, que se refaz a cada canto. No cruzamento entre arte e política, suas imagens e sons nos lembram que nossas histórias nunca foram apenas as narrativas coloniais que nos contaram – elas também são aquilo que seguimos cantando, mesmo quando ninguém parece estar ouvindo.