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Huguette Caland

Publicado em 01 set, 25
bienal · #36bienal | audioguia | Huguette Caland

Desde a sua primeira pintura, Sol Vermelho, de 1964, Huguette Caland nunca mais parou de pintar. Ela desafiou convenções da sociedade libanesa ao pintar seus amantes, partes de corpos e telas em que a escrita tem um papel essencial. Ela explora a linha como fio condutor, nunca tirando a caneta do papel ao desenhar. Essas linhas formam corpos, cidades, escritas contínuas. Em 1990, a artista escreveu que “a vida é concreta pois pertencemos a um corpo. Ela é abstrata pois sabemos que vamos morrer.”

As obras de Huguette Caland expostas na Bienal revelam um diálogo entre pintura e desenho, sempre em formatos contidos que pedem proximidade do olhar. Entre óleos sobre linho e trabalhos em papel, a artista explora linhas fluidas, cores suaves e fragmentos do corpo que oscilam entre a abstração e a sensualidade. O visitante encontra composições que parecem paisagens e, ao mesmo tempo, detalhes íntimos, onde humor e erotismo se insinuam de forma delicada.

Em Pedaços de corpos (1973), com 49 centímetros de altura por 41 de largura, temos uma pintura em que manchas rosadas se acumulam em curvas macias, lembrando dobras de pele vistas de muito perto. O corpo não aparece inteiro: apenas fragmentos que sugerem contato e volume, como se fossem colinas arredondadas, deixando espaço para que a imaginação complete a cena.

Um jogo semelhante aparece em Sorriso amarelo (1970), bem menor, de 12 centímetros de altura por 17 de largura. Aqui, o fundo amarelo intenso domina a superfície, enquanto linhas curvas delicadas insinuam formas do corpo. A cor vibrante dá leveza e um tom quase divertido à sensualidade sutil do desenho.

Em outra direção, Deserto (1985), de 45 centímetros de altura por 61 de largura, mostra duas formas alongadas pintadas em tons de ocre e laranja suave sobre um fundo claro. Podem ser lidas como corpos deitados lado a lado ou como uma paisagem árida vista de cima. A ambiguidade entre corpo e deserto cria uma imagem ao mesmo tempo íntima e distante.

Entre os trabalhos em papel, destaca-se Parêntese 1 (1971), de 24 centímetros de altura por 19 de largura. É um desenho muito simples: uma única linha em tinta percorre o papel como se fosse o movimento de uma pena. Essa linha curva lembra a dobra de um tecido ou a abertura de uma concha, condensando a presença do corpo em um gesto mínimo e delicado.

Por fim, Homenagem aos pelos pubianos (1992), de 12 centímetros de altura por 25 de largura, é um desenho horizontal sobre papel. No centro, uma mancha preta feita de linhas curtas representa os pelos púbicos. Junto dela aparecem pequenos círculos coloridos, como medalhões, um deles quase colado ao núcleo central. Dessa região parte uma faixa diagonal em rosa e verde que atravessa o papel como se fosse a linha de uma roupa íntima, uma tira que parece se apoiar logo abaixo do púbis. Essa faixa conecta essa área a um círculo próximo da borda esquerda, enquanto à direita surge outro círculo mais isolado, ligado por uma linha fina. No alto, retângulos em preto e cinza lembram degraus. O fundo claro ressalta o motivo, transformando o detalhe íntimo do corpo em tema principal da obra.

A obra de Caland nos lembra dos momentos íntimos e ínfimos que podem ser os mais importantes de nossas vidas.

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