Hamedine Kane é artista visual e cineasta. Nasceu na Mauritânia, em 1983, e vive entre Dacar, Paris e Bruxelas. Sua prática abrange vídeo, fotografia, performance e instalação, e aborda temas como migração, fronteiras, memória e os efeitos do colonialismo.
Nesta itinerância da 36ª Bienal, Kane apresenta as instalações Les Ressources – Le Ventre de l’Atlantique #2 e #3 [Os recursos – O ventre do Atlântico #2 e #3], realizadas por ele e seu colaborador, Boris Raux. Ambas são de grande porte. A primeira se assemelha a um painel de madeira, com aproximadamente 2 metros 75 centímetros de altura por 9 de comprimento. A segunda, também de madeira, tem o formato de um píer ou pontão, com 12 metros de comprimento.
Este trabalho foi desenvolvido a partir de pesquisas realizadas por Kane no litoral do Senegal, na cidade de Dacar, e, depois, no Brasil, em Salvador e São Paulo. O artista conversou com comunidades pesqueiras e acompanhou os impactos da pesca industrial e da superexploração dos recursos para quem depende diretamente do mar para viver.
Os recursos – O ventre do Atlântico #2 é formado por um grand e painel retangular, com 9 metros de comprimento, pintado de laranja e posicionado na vertical. Sobre esse painel há duas estruturas quadradas e brancas, que se sobressaem ligeiramente para frente. Nelas se espalham pequenos desenhos, sinais, palavras, formas geométricas – rastros das pesquisas e da vida pesqueira que Kane busca apresentar. Ao redor desses painéis brancos, sobre a parte laranja do painel, há dezenas de outros elementos que remetem mais literalmente às embarcações e às atividades de pesca, distribuídos como em um inventário. Há fragmentos e pequenas peças de madeira, placas, recipientes, ferramentas, remos, cordas, galões e outros objetos de formatos e cores variadas. Próximo à parte superior, uma pequena embarcação com vela vermelha se destaca, transbordando o painel laranja.
Os recursos – O ventre do Atlântico #3, por sua vez, se estende pelo espaço como um píer com mais de doze metros de comprimento, construído com madeiras de diferentes tamanhos e aspectos. Algumas de suas partes são sustentadas por grossos troncos verticais, e as tábuas preservam irregularidades, manchas e sinais da passagem do tempo. Sobre essa longa superfície está uma grande quantidade de objetos. Há inúmeros livros, geralmente de pessoas intelectuais negras, como Abdias do Nascimento, Denise Ferreira da Silva e Frantz Fanon; papéis; pedaços de madeira; pequenos objetos, recipientes e miniaturas de embarcações. Em alguns pontos, tábuas e peças se erguem verticalmente, criando pequenas divisões e apoios.
A forma de píer ou pontão é central para a obra. Kane a imagina como uma espécie de embarcação que carrega objetos, imagens, documentos, ideias e histórias que navegam. A pessoa visitante encontra vestígios de atividades ligadas ao mar, ao mesmo tempo em que é convidada a percorrer visualmente um arquivo sobre territórios e pessoas que vivem da pesca.
Ao transformar objetos cotidianos em testemunhos da extração abusiva de recursos, particularmente de espécies marinhas nas costas dos dois países, as obras lançam luz sobre as lutas compartilhadas de comunidades pesqueiras no Senegal e no Brasil, bem como os saberes e modos de vida construídos em torno do Atlântico.