Pode parecer estranho ver uma obra de arte estampando frases como “droga de arte” ou “arte aqui eu mato”. O que leva um objeto artístico a se rebelar contra sua própria natureza?
Essa provocação atravessa a obra de Gervane de Paula, artista nascido em Cuiabá, cuja produção abrange esculturas, pinturas e objetos que dialogam com o Cerrado e o Centro-Oeste. Seus trabalhos combinam cores vibrantes e imagens solares com denúncias da violência provocada pela expropriação de terras e pelas dinâmicas do mercado da arte. O desastre convive com a celebração, e o humor caminha ao lado da crítica. Em muitas obras, frases carregadas de ironia nos desafiam a ouvir o que os objetos têm a dizer. “A vida é boa porque tem fim”, por exemplo, revela uma visão crua e poética da existência.
Gervane se define como objetista. Há mais de 40 anos, sua prática se reinventa, fazendo com que a própria arte se questione. Suas criações frequentemente dão forma à fauna local — onças, tuiuiús e seres fantásticos — que parecem carregar segredos do mundo natural e, ao mesmo tempo, denunciar sua devastação.
Na Bienal, o artista apresenta 56 obras produzidas ao longo de 25 anos, reunindo pinturas, esculturas e objetos que combinam crítica social, religiosidade, humor e elementos do cotidiano mato-grossense. Seus materiais — madeira, papel machê, metal, tecido, colagens — são moldados em composições de cores intensas e formas diretas, povoando o espaço expositivo com figuras híbridas, animais simbólicos e mensagens incisivas.
Dentre os trabalhos apresentados, destaca-se a série em torno da frase “Arte Aqui Eu Mato”, explorada como pintura, objeto e palavra-imagem. Um exemplo marcante é a obra homônima de 2020: colagem e óleo sobre chapa galvanizada, na qual um homem carrega uma onça pintada contra um fundo vermelho vibrante, decorado com padrões em zigue-zague. A cena evoca conflito, resistência e ancestralidade, enquanto a frase ressurge em outras peças, ampliando sua carga política e poética.
Outro destaque é a escultura Tranca Rua (2025), feita de madeira, couro, sola e tachinhas. A peça apresenta uma figura zoomórfica de corpo alongado, atravessada por uma faixa negra e apoiada sobre quatro patas. Em suas extremidades, duas cabeças esculpidas com expressões incisivas são adornadas por fileiras de tachinhas que lembram espinhos ou cristas, sugerindo proteção e confronto. Com 1,20 m de comprimento e 70 cm de altura, a obra reúne símbolos da cultura popular e elementos de força ritual, num gesto que guarda e desafia ao mesmo tempo.
Já o painel Em Cuiabrasa a caminho do sol (2025), óleo sobre tela de 3,5 m por 1,65 m, apresenta uma composição que une elementos gráficos e simbólicos. No alto da cruz central, um sol estilizado sorri de forma inquietante — seus dentes substituídos pela palavra CUIABRASA, alusão direta ao calor extremo da cidade de Cuiabá. Esse calor, agravado pelo desmatamento no Cerrado e na Amazônia, torna-se símbolo de uma crise climática silenciosa. Abaixo do sol, uma figura negra segura uma flecha e um tridente cruzados diante do corpo. O tridente, associado a Exu, representa equilíbrio e comunicação entre mundos. Com os pés fincados na terra e flores roxas nas mãos, essa figura ancestral parece mediar o embate entre destruição e permanência.
Na base da obra, marcas de pés acompanham um poema que reforça a dimensão sensível e política do trabalho:
Caminhantes / não há caminhos.
Se faz caminho / ao andar.
Eu gosto de vê-los se pintando / com a luz sol / escarlate,
voar sob o céu azul,
Tremer e subitamente / quebrar-me.
Sofro o golpe / Verso a verso.