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Gervane de Paula

5:58
Publicado em 18 mar, 26
bienal · #36bienal | audioguia | Gervane de Paula | Curitiba

Pode parecer estranho ver uma obra de arte estampando frases como “droga de arte” ou “arte aqui eu mato”. O que leva um objeto artístico a se rebelar contra sua própria natureza?

Essa provocação atravessa a obra de Gervane de Paula, artista nascido em Cuiabá, cuja produção abrange esculturas, pinturas e objetos que dialogam com o Cerrado e o Centro-Oeste. Seus trabalhos combinam cores vibrantes e imagens solares com denúncias da violência provocada pela expropriação de terras e pelas dinâmicas do mercado da arte. O desastre convive com a celebração, e o humor caminha ao lado da crítica. Em muitas obras, frases carregadas de ironia nos desafiam a ouvir o que os objetos têm a dizer. “A vida é boa porque tem fim”, por exemplo, revela uma visão crua e poética da existência.

Gervane se define como objetista. Há mais de quarenta anos, sua prática se reinventa, fazendo com que a própria arte se questione. Suas criações frequentemente dão forma à fauna local – onças, tuiuiús e seres fantásticos – que parecem carregar segredos do mundo natural e, ao mesmo tempo, denunciar sua devastação.

Nesta itinerância, o artista apresenta obras produzidas ao longo de 25 anos, reunindo pinturas, esculturas e objetos que combinam crítica social, religiosidade, humor e elementos do cotidiano mato-grossense. Materiais como madeira, papel machê, metal, tecido e colagens são moldados em composições de cores intensas e formas diretas, povoando o espaço expositivo com figuras híbridas, animais simbólicos e mensagens incisivas.

Dentre os trabalhos apresentados, destaca-se a série em torno da frase “arte aqui eu mato”, explorada como pintura, objeto e palavra-imagem. Um exemplo marcante é a obra homônima de 2021, feita com tinta a óleo sobre madeira com colagem. Ela é composta por uma imagem central retangular, colocada sobre um fundo maior com padrão gráfico. Esse fundo externo é amarelo, coberto por faixas diagonais pretas. Sobre ele está a imagem central, um retângulo vermelho com linhas pretas em zigue-zague. No centro desse retângulo há um homem visto de costas. Ele veste roupas brancas – calça, camisa e chapéu – e carrega sobre o ombro esquerdo o corpo de uma onça pintada, pendurada em um fino tronco. A pelagem é amarela, coberta por manchas pretas e vermelhas, e seu corpo também parece dilacerado. À esquerda do homem, escrita em letras grandes e brancas, aparece a frase “arte aqui eu mato”. 

A frase ressurge em outras peças do artista, como em um políptico formado por quatro objetos verticais de madeira esculpida e pintada. As placas têm formatos irregulares, levemente ondulados, e apresentam cores intensas como amarelo, azul, verde e branco. Distribuídas lado a lado na parede, elas trazem letras pintadas à mão que, juntas, formam novamente a frase “arte aqui eu mato”. Na base de cada peça, uma corda colorida forma um laço que se projeta para baixo, reforçando a verticalidade do conjunto. Entre pintura, texto e objeto, a obra transforma a frase em presença física no espaço, reiterando o gesto irônico e provocador que atravessa a produção de Gervane.

Nesta itinerância da 36ª Bienal, Gervane de Paula também apresenta uma série de esculturas carregadas de crítica e de humor. 

Em Tuiuiú enjoado (2005), Gervane cria uma figura híbrida e bem-humorada. Um tuiuiú – ave símbolo do Pantanal – aparece sentado em uma cadeira infantil de alimentação, pintada de vermelho e azul. A ave, modelada em papel machê e pintada a óleo, tem corpo branco e bico longo e cinza, com a característica faixa vermelha no pescoço. A cadeira está posicionada sobre um tapete circular colorido em crochê e apresenta, na parte frontal da bandeja, um pequeno prato redondo com inscrição. No prato vazio, lê-se “nesta casa só tem soja”. A cena aproxima o universo do cotidiano doméstico da figura do pássaro pantaneiro, criando uma imagem ao mesmo tempo lúdica e crítica. Contrapondo a fome com o excesso de produção de soja para exportação, a escultura comporta-se como uma charge.

O calor, os animais, a relação de extração e simbiose entre humano e natureza, e, por extensão, a relação do artista com o mercado da arte, são todos temas que reaparecem constantemente na obra de Gervane, como atesta essa seleção de obras emblemáticas de sua carreira.

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