Pode parecer estranho ver uma obra de arte estampando frases como “droga de arte” ou “arte aqui eu mato”. O que leva um objeto artístico a se rebelar contra sua própria natureza?
Essa provocação atravessa a obra de Gervane de Paula, artista nascido em Cuiabá, cuja produção abrange esculturas, pinturas e objetos que dialogam com o Cerrado e o Centro-Oeste. Seus trabalhos combinam cores vibrantes e imagens solares com denúncias da violência provocada pela expropriação de terras e pelas dinâmicas do mercado da arte. O desastre convive com a celebração, e o humor caminha ao lado da crítica. Em muitas obras, frases carregadas de ironia nos desafiam a ouvir o que os objetos têm a dizer. “A vida é boa porque tem fim”, por exemplo, revela uma visão crua e poética da existência.
Gervane se define como objetista. Há mais de quarenta anos, sua prática se reinventa, fazendo com que a própria arte se questione. Suas criações frequentemente dão forma à fauna local – onças, tuiuiús e seres fantásticos – que parecem carregar segredos do mundo natural e, ao mesmo tempo, denunciar sua devastação.
Nesta itinerância, o artista apresenta dezesseis obras produzidas ao longo de 25 anos, reunindo pinturas, esculturas e objetos que combinam crítica social, religiosidade, humor e elementos do cotidiano mato-grossense. Materiais como madeira, papel machê, metal, tecido e colagens são moldados em composições de cores intensas e formas diretas, povoando o espaço expositivo com figuras híbridas, animais simbólicos e mensagens incisivas.
Dentre os trabalhos apresentados, destaca-se a série em torno da frase “arte aqui eu mato”, explorada como pintura, objeto e palavra-imagem. Um exemplo marcante é a obra homônima de 2021, feita com tinta a óleo sobre madeira com colagem. Ela é composta por uma imagem central retangular, colocada sobre um fundo maior com padrão gráfico. Esse fundo externo é amarelo, coberto por faixas diagonais pretas. Sobre ele está a imagem central, um retângulo vermelho com linhas pretas em zigue-zague. No centro desse retângulo há um homem visto de costas. Ele veste roupas brancas – calça, camisa e chapéu – e carrega sobre o ombro esquerdo o corpo de uma onça pintada, pendurada em um fino tronco. A pelagem é amarela, coberta por manchas pretas e vermelhas, e seu corpo também parece dilacerado. À esquerda do homem, escrita em letras grandes e brancas, aparece a frase: “ARTE AQUI EU MATO”. A cena evoca conflito e resistência, enquanto a frase ressurge em outras peças do artista, ampliando sua carga política e poética.
Outro destaque é a escultura intitulada Bicho. Produzida em 2025 com madeira e gesso, tem 1 metro e 40 de altura por 1 metro e 30 de largura e 80 de profundidade. Nela, Gervane de Paula apresenta uma figura híbrida, entre humano e animal, posicionada sobre uma base de madeira escura, de contorno irregular. O corpo é esguio e está na posição vertical, em pé.
No lugar da cabeça, surge uma forma alongada e curva, semelhante a um grande bico de ave, pintado em preto. A extremidade se projeta para frente e, na ponta, faz uma leve curva para baixo. O pássaro retratado é o tuiuiú, ou jaburu, a ave símbolo do Pantanal, que aparece recorrentemente na obra de Gervane.
A cabeça se conecta ao corpo por um pescoço comprido e estreito, pintado de preto. Na transição entre pescoço e tronco, há uma pequena faixa vermelha, como um colarinho de uma camisa. O tronco, por sua vez, é levemente projetado para frente e para os lados. Está pintado de branco, com sulcos verticais que lembram pregas ou dobras.
Nas laterais do tronco, duas grandes placas planas de madeira se expandem para fora, como asas abertas. São feitas de madeira clara e possuem grafismos em vermelho e azul-escuro, que apresentam pequenas figuras humanas estilizadas, dispostas em sequência horizontal, e sóis radiantes. As pernas são longas, pretas e articuladas, com os joelhos flexionados. Os pés são pequenos e estão voltados para fora.
Ao redor da figura, sobre a base, estão distribuídos diversos volumes brancos, semelhantes a ovos, apoiados diretamente na madeira. Eles formam um círculo ao redor do personagem central, criando a impressão de proteção, vigília ou gestação simbólica.
Já no painel Fogo, produzido em 2000, Gervane de Paula apresenta uma pintura a óleo sobre tela de 2 metros e meio por um metro e meio de altura. A composição é horizontal e ampla, ocupando o espaço como um grande painel narrativo de fundo preto, delimitado por uma serpente que forma uma borda ondulante em amarelo-ocre, com adornos circulares em preto.
No lado esquerdo da tela, se destaca uma figura híbrida de humano e animal. Seu corpo é preto e volumoso, ocupando boa parte do espaço. Na cabeça, além de duas pequenas orelhas e um olho que observa desconfiado, há um bico muito longo que se projeta para frente e se curva para baixo na ponta. No peito, há um grande coração vermelho, pintado de forma simples e chapada, e o corpo segue apoiado em duas pernas e pés humanos. Numa das mãos, a personagem segura uma boia oval vermelha e, na outra, um objeto cilíndrico também vermelho.
Ao centro da composição, abre-se um lago azul-escuro, com inúmeros pares de olhos de jacarés espalhados sobre a superfície, observando o entorno com curiosidade. Atrás do lago, ao fundo, uma área de vegetação verde é atravessada por um grande foco de fogo. As chamas explodem em tons de laranja, amarelo e vermelho, irradiando para cima e iluminando o céu escuro. A pincelada é mais solta e energética nessa região, criando sensação de movimento e calor intenso.
No lado direito da composição, surge uma personagem de corpo muito fino, amarelado e esguio. Ela está de perfil, olhando para a personagem híbrida no canto esquerdo da composição. Tem cabelos verdes, nariz muito comprido e pontudo, e sorri. Os braços estão flexionados no cotovelo, com as mãos para cima, e os pés se entrelaçam à serpente que faz a borda da composição. Ao redor dessa personagem, formas orgânicas em verde vibrante se acumulam e se entrelaçam. Uma delas se parece com um peixe, outra com uma onça-pintada, e uma terceira tem pés humanos e corpo híbrido. Ao redor, a vegetação se mistura em tons de verde, azul e preto.
O calor, os animais, a relação de extração e simbiose entre humano e natureza, e, por extensão, a relação do artista com o mercado da arte, são todos temas que reaparecem constantemente na obra de Gervane, como atesta essa seleção de obras emblemáticas de sua carreira.