“O humano é inteiramente protético”, diz Berenice Olmedo. Como voluntária no Crit (Centro de Reabilitação e Inclusão Infantil Teletón), espaço dedicado a crianças com deficiências neuromusculares, a artista há muitos anos está em sintonia com as vivências, saberes e perspectivas de pessoas com deficiência.
Ela desenvolve esculturas e objetos cinéticos que exploram a materialidade de órteses e próteses. Suas esculturas lembram corpos humanos e fazem questionar se nossos corpos são feitos apenas de carne e osso. O uso de instrumentos não é parte da vida humana? Os aparelhos tecnológicos que usamos se diferem do nosso corpo?
Sua prática questiona as estruturas de normatividade, capacitismo, classe e objetificação como imposições de poder e hierarquia. Em linha com o livro Afinidade Crip, de Shayda Kafai, ela parte da experiência e da teoria dos movimentos de pessoas com deficiência e do pensamento da teoria crip. Em vez de entender afinidade e parentesco apenas nos moldes tradicionais de família biológica ou nuclear, Kafai propõe pensar em formas de cuidado, afeto, solidariedade e comunidade que se constroem entre pessoas que compartilham experiências de deficiência, marginalização ou exclusão. É uma ideia de solidariedade e ativismo entre pessoas que reconhecem suas diferenças.
Para esta Bienal, Berenice apresenta a instalação Pnoê [Respirar], composta por três esculturas de silicone moldadas como órgãos artificiais (ortopróteses), que lembram pulmões e próteses mamárias. As peças, em tons translúcidos entre o branco leitoso e o rosado, têm dimensões que variam de cerca de cento e quarenta a duzentos centímetros de altura, sessenta a cento e quarenta de largura e cerca de cinquenta de profundidade, e estão dispostas sobre bancadas de trabalho que remetem a mesas cirúrgicas, reforçando a associação com ambientes hospitalares.
O conjunto é ancorado por uma escultura metálica inspirada no desenho de um “pulmão de ferro”. Nela, válvulas, bombas, sensores e tubos, acionados por um motor pneumático, promovem um movimento contínuo de expansão e contração, simulando o ato de respirar. Dentro dessa estrutura, o mecanismo se conecta aos órgãos de silicone por mangueiras de plástico, permitindo que o visitante perceba o fluxo de ar entre os órgãos sintéticos, assim como o som abafado do funcionamento.
A artista comumente trabalha com próteses externas ao corpo, mas, nesta obra, ela ficou intrigada com métodos médicos avançados que permitem que órgãos – como pulmões – respirem e vivam fora do corpo.
A escolha de próteses e componentes médicos reforça a reflexão da artista sobre a tecnologia como extensão inseparável do corpo humano e sobre a dimensão política da deficiência. Em suas palavras, Olmedo afirma que “não há estigma da deficiência no mundo que proponho, apenas variações de existências, variações de movimentos, variações de lentidão e velocidade.”.