“O humano é inteiramente protético”, diz Berenice Olmedo. Como voluntária no Crit (Centro de Reabilitação e Inclusão Infantil Teletón), espaço dedicado a crianças com deficiências neuromusculares, a artista está em sintonia com as vivências, saberes e perspectivas de pessoas com deficiência há muitos anos.
Ela desenvolve esculturas e objetos cinéticos que exploram a materialidade de órteses e próteses. Suas esculturas lembram corpos humanos e fazem questionar se nossos corpos são feitos apenas de carne e osso. O uso de instrumentos não é parte da vida humana? Os aparelhos tecnológicos que usamos se diferem do nosso corpo?
Sua prática questiona as estruturas de normatividade, capacitismo, classe e objetificação como imposições de poder e hierarquia. Em linha com o livro Afinidade Crip, de Shayda Kafai, a autora parte da experiência e da teoria dos movimentos de pessoas com deficiência. No lugar de entender afinidade e parentesco apenas nos moldes tradicionais da família biológica ou nuclear, Kafai propõe pensar em formas de cuidado, solidariedade e comunidade que se constroem entre pessoas que compartilham experiências de deficiência, marginalização ou exclusão. É uma ideia de coletividade e ativismo entre pessoas que reconhecem suas diferenças.
Para esta itinerância da 36ª Bienal, Berenice apresenta a instalação Pnoê [Respirar], composta por quatro esculturas: três suspensas, de silicone, e uma metálica, apoiada no chão.
No alto, as três esculturas pendem do teto, sustentadas por fios translúcidos. Elas não chegam a tocar o chão, permanecendo suspensas a diferentes alturas. As peças variam de cerca de 1 metro e 40 a 2 metros de altura, 60 centímetros a 1 metro e 40 de largura e cerca de 50 centímetros de profundidade.
As formas são orgânicas, volumosas e irregulares, moldadas como órgãos artificiais ou ortopróteses, semelhantes a pulmões. O material é translúcido, com tons esverdeados e acinzentados, e é feito de vidro com partes encaixadas e algumas partes em silicone. A luz atravessa parcialmente o corpo das peças. De cada escultura desce um conjunto de fios translúcidos, que se prolongam até o chão e seguem em direção à escultura metálica apoiada no chão.
No centro do espaço está essa escultura metálica e cilíndrica, em posição vertical, inspirada no formato de um “pulmão de ferro”. Ela tem aspecto industrial, com superfície prateada, válvulas, pequenas janelas, sensores e tubos. Esse conjunto metálico é acionado por um motor pneumático que realiza um movimento contínuo de expansão e contração, simulando o ato de respirar. O mecanismo, conectado às esculturas de silicone pelos fios, permitem que o visitante perceba o fluxo de ar entre os órgãos sintéticos, assim como o som abafado do funcionamento.
A artista comumente trabalha com próteses externas ao corpo, mas, nesta obra, ela ficou intrigada com métodos médicos avançados que permitem que órgãos respirem e vivam fora do corpo.
A escolha de próteses e componentes médicos reforça a reflexão da artista sobre a tecnologia como extensão inseparável do corpo humano e sobre a dimensão política da deficiência. Em suas palavras, Berenice afirma que “não há estigma da deficiência no mundo que proponho, apenas variações de existências, variações de movimentos, variações de lentidão e velocidade”.