Quantas vezes precisamos repetir nossos erros até finalmente aprendermos com eles? Embora frequentemente se veja a história da humanidade sob a ótica do progresso, ela também é marcada por rupturas e dilatações.
Em catástrofe orquestra n. 1 (Ato I), Antonio Társis aborda a pulsão e a repetição como metáforas para o percurso histórico. Utilizando caixas de fósforo coletadas, o artista constrói painéis com áreas vazias e uma insistência no uso do mesmo material. As superfícies vermelhas evocam corpos que respiram: repetidas, mas porosas. Nesse contexto, a repetição se apresenta como uma expressão da busca constante da humanidade.
A obra incorpora ainda a ideia de ritmo, ativado por um mecanismo que movimenta pendentes de corda ligados aos painéis. À medida que tocam tambores, esse movimento desgasta os elementos e transforma a matéria, evidenciando o tempo como agente de mudança.
Como observa Starasea Camara no catálogo da Bienal, “do atrito da água aquecida aos assobios pressurizados do vapor, passando pelo eco abafado do carvão batendo em atabaques, tambor artesanal de sua comunidade no Cabula, Salvador, suas instalações evocam paisagens de desordem que revelam extração, consumo e destruição humanos.”
A instalação ocupa uma ampla área com 11 paredes suspensas, formadas por mosaicos de pequenos retalhos de caixas de fósforo pintados em tons vibrantes de roxo, vermelho e rosa, com toques de laranja, verde, preto e manchas amareladas. Colados sobre uma estrutura de ripas finas de madeira, esses fragmentos compõem painéis de textura densa e irregular. Espalhados pelo espaço, 64 pendentes de corda sustentam peças de carvão que, acionadas por um motor, se fragmentam com o impacto. Os resíduos caem ao chão e se misturam aos detritos das paredes, transformando continuamente o aspecto da obra.
Sob alguns pendentes, três tambores de couro — djembes — recebem os fragmentos de carvão, produzindo sons abafados, secos e irregulares. Captados por microfones e amplificados, esses sons se somam a uma paisagem sonora composta por ruídos e vozes humanas, criando uma cadência imprevisível e fragmentada.
Nas palavras do próprio artista, sua instalação é “uma tentativa de criar um ambiente de colisão entre materialidade, destruição, ruído, a higienização fria das grandes tecnologias e a humanidade.”