Ultimamente, proliferam-se notícias sobre detenções de imigrantes ditos ilegais nos Estados Unidos sob a custódia do ICE – o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. Quantas vidas não são fraturadas nesse processo violento?
Muito cedo, Andrew Roberts conheceu essa realidade. Como muitas pessoas que vivem na região fronteiriça entre o México e os Estados Unidos, seu pai foi detido ao atravessar a fronteira. Ficou num centro de detenção. As memórias do artista ao visitar seu pai são um pouco fantasmagóricas – como criança, não entendia muito bem onde estava. Esse local de carinho era asséptico, frio. Lembrava um McDonald’s.
Andrew Roberts apresenta Haunted [Assombrado] (2025), videoinstalação composta de mesas e bancos de metal e impressões 3D que recria uma lanchonete de fast-food próxima ao muro entre México e Estados Unidos. O espaço traz quatro mesas com quatro bancos cada, de alumínio cinza metálico e com cantos arredondados, que lembram tanto franquias comerciais quanto refeitórios prisionais. Sobre as mesas, esculturas de borracha preta evocam brinquedos descartáveis. Elas representam um hambúrguer, um jornal, um computador e um taco de golfe. A sala é branca, mas por vezes é toda banhada por uma luz vermelha.
À frente, uma projeção retangular em grande escala, com cerca de três metros de largura por dois de altura, mostra três entidades espectrais: uma escuridão móvel, uma massa de borracha líquida e uma luz vermelha intensa. Elas percorrem corredores e banheiros, transformando a cena cotidiana em ambiente assombrado. A cada ato, som e cor variam: do silêncio sombrio ao brilho rubro acompanhado por ruídos e vozes.
No entorno, aparecem lixeiras e materiais de limpeza cobertos por relevos de borracha, armários com uma fantasia do mascote Jack in the Box e uma entrada marcada por portas de vidro duplo com caixa de luz em vermelho e branco, cores da marca. O mascote é um personagem publicitário de uma rede de fast-food americana: um boneco de cabeça branca arredondada, olhos azuis e sorriso fixo, sempre de terno e chapéu cônico amarelo, representado em campanhas como um executivo bem-humorado. Nos anos 2000, a rede distribuiu versões em miniatura desse personagem em diferentes profissões, policial, bombeiro, médico, nos combos de comida destinados às crianças. Roberts reapresenta esses objetos em perspectiva crítica, como promessas de progresso transformadas em espectros.
Entre fast-food, cárcere e sessões espíritas, Roberts propõe o que chama de “realismo espectral”: dar corpo às forças sociais e históricas que nos atravessam, mostrando como o terror se infiltra na vida comum.
Uma obra digital do artista localizada temporariamente durante a mostra na fronteira Tijuana-San Diego e também dentro do Parque Ibirapuera também pode ser acessada por meio do programa de Aparições, por meio do aplicativo WAVA, expandindo as fronteiras da mostra para além do Parque Ibirapuera e do Pavilhão da Bienal.