Ultimamente, proliferam-se notícias sobre detenções de imigrantes ditos ilegais nos Estados Unidos sob a custódia do ICE – o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. Quantas vidas não são fraturadas nesse processo violento?
Muito cedo, Andrew Roberts conheceu essa realidade. No início dos anos 2000, seu pai foi preso na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Após um período de encarceramento, ele foi liberado. No entanto, ele foi obrigado a permanecer na Califórnia, uma situação que acabou causando a desintegração da família do artista, de origem mexicana. Nesse contexto, um estabelecimento de fast-food, chamado Jack in the Box, funcionava como um ponto de encontro nos finais de semana. Localizado ao lado do muro da fronteira, era um lugar seguro para trabalhadores migrantes e famílias separadas pelas políticas de imigração. Também simbolizava as duras realidades das relações fronteiriças.
Nesta itinerância da 36ª Bienal, Andrew Roberts apresenta a videoinstalação Haunted [Assombrado], de 2025. O artista busca recriar o ambiente da lanchonete de fast-food na fronteira entre México e Estados Unidos. Assim, a obra explora as implicações políticas, poéticas e estéticas inerentes aos sistemas de opressão, a uma economia baseada no terror e às narrativas de monstros.
A instalação consiste em uma sala fechada, de formato retangular, com iluminação rosa avermelhada. As paredes, o teto e o fundo são banhados por essa luz intensa, criando uma atmosfera misteriosa e imersiva.
Na parede ao fundo há uma tela, com cerca de três metros de largura por dois de altura, na qual é projetado um vídeo de 21 minutos.
No restante do espaço está uma mesa de metal, de altura média, com tampo circular e base central. Sobre a mesa há uma pequena escultura de borracha preta feita em impressão 3D que evoca um brinquedo descartável, como um taco de golfe.
Ao redor da mesa há bancos com assentos redondos, também confeccionados em material metálico. Os bancos são organizados de modo a permitir que as pessoas se sentem ou circulem pelo espaço.
Esse conjunto de mobiliário ecoa o das franquias de fast-food ou também arranjos carcerários, lembrando-nos daquela outra violência presente em zonas fronteiriças. Na obra de Andrews, os cantos arredondados das mesas e bancos também dialogam com as sessões espíritas da modernidade, onde os mortos são contactados e mediados, conjurando os fantasmas do passado.
Essa proposta é complementada pelo vídeo projetado no telão ao fundo da sala. Nele, o artista apresenta uma animação digital onde um grupo de entidades espectrais se infiltrará em uma réplica do estabelecimento Jack in the Box, a lanchonete localizada em uma fronteira tão violenta quanto cotidiana.
As três entidades espectrais são: uma escuridão móvel, uma massa de borracha líquida e uma luz vermelha intensa. Elas percorrem corredores e banheiros, transformando a cena cotidiana em ambiente assombrado. A cada ato, som e cor variam: do silêncio sombrio ao brilho rubro acompanhado por ruídos e vozes.
No entorno, aparecem lixeiras e materiais de limpeza cobertos por relevos de borracha, armários com uma fantasia do mascote Jack in the Box e uma entrada marcada por portas de vidro duplo com caixa de luz em vermelho e branco, cores da marca. O mascote é um personagem publicitário da rede de fast-food americana: um boneco de cabeça branca arredondada, olhos azuis e sorriso fixo, sempre de terno e chapéu cônico amarelo, representado em campanhas como um executivo bem-humorado. Nos anos 2000, a rede distribuiu versões em miniatura desse personagem em diferentes profissões, policial, bombeiro, médico, nos combos de comida destinados às crianças. Roberts reapresenta esses objetos em perspectiva crítica, como promessas de progresso transformadas em espectros.
Entre fast-food, cárcere e sessões espíritas, Haunted cria um “realismo espectral”: uma maneira de dar corpo às forças sociais e históricas que nos atravessam, mostrando como o terror pode se infiltrar na vida comum.