A casa de Bené (2025) é uma instalação de grande escala que se estende pelos três andares do Pavilhão Ciccillo Matarazzo. A obra se constrói a partir de fragmentos da antiga casa de pau a pique do bisavô da artista, Benedito Cândido, demolida em Bela Vista de Minas. Objetos remanescentes desse espaço, como um pedaço de cipó, um isqueiro em forma de bala, um cesto de bambu, uma cabaça, varas de pau-mulato e uma pequena caixa de madeira, são incorporados à instalação, funcionando como núcleos de memória e ancestralidade.
O público encontra nove colunas verticais, erguidas em estrutura de madeira e revestidas por esculturas têxteis feitas de amarrações de tecidos, fibras naturais, tricôs de lã, camisas de algodão e tiras de couro. As colunas atravessam os três pavimentos do edifício, simbolizando a descendência dos nove filhos de Benedito, e criam um eixo totêmico visível de distintos pontos de circulação da Bienal.
Espalhados pelo espaço expositivo, cestos metálicos em bronze e latão evocam, por suas cores douradas e amareladas, o contraste entre a mineração, atividade predominante em Bela Vista, e as práticas tradicionais de cestaria. De alguns desses recipientes brotam esculturas têxteis moles e flexíveis, em tons predominantemente terrosos, negros e avermelhados, que se projetam pelo ar e pelo chão como cordões umbilicais que conectam os diferentes níveis da obra. Outros cestos guardam materiais brutos do território mineiro, como carvão, pedras, terra, minério e fumo, que acrescentam à paleta matizes de preto profundo, cinza, vermelho-óxido e marrom escuro.
Entre esses elementos, os sete objetos herdados de Vovô Bené aparecem elevados em hastes, destacando-se como pontos de ligação direta com a memória familiar e, ao mesmo tempo, coletiva. O resultado é um ambiente de múltiplas camadas, que combina peso e leveza, solidez e fluidez, projetando no espaço expositivo a permanência simbólica de uma casa e de sua memória familiar.
Segundo a própria artista, “o trabalho sabe coisas que a gente nem sabe ainda.” O seu primeiro trabalho foi uma ação contínua de dez anos, movido pela história da sua família consanguínea, principalmente a jornada de seu bisavô. Ele era, entre outras coisas, artista, embora ninguém nomeasse o seu labor físico e cognitivo como arte. Suas obras eram ligadas à cestaria, técnica tradicional de trançar varas de bambu ou cipó. Sua maior obra foi a sua casa, um projeto que atravessou décadas. É inevitável pensar a casa como um campo de disputa, resistindo à expropriação da terra pela mineração, à ditadura civil e militar e à escravidão e seus efeitos. Sua prática é baseada em pesquisa. Ela também tem uma forte ligação com a noção de projeto a longo prazo. Embora parta de histórias pessoais, ela se ancora também na história coletiva.