Akinbode Akinbiyi retrata a vida nas cidades desde os anos 70 com uma câmera Rolleiflex. Já passou por Lagos, Cairo, Berlim, Dakar, Joanesburgo, Chicago e Bamako. Para a 36ª Bienal, ele navegou por São Paulo, em especial o bairro do Bom Retiro.
Ele é um artista itinerante, fotógrafo, constantemente vasculhando o ambiente imediato, constantemente à procura. Tudo pode ser interessante para Akinbode, desde os objetos descartados na rua até o alcance de uma árvore majestosa. As narrativas e as histórias são as principais preocupações, mas também as cadências silenciosas do não ouvido, do quase oculto.
Nesta itinerância da 36ª Bienal, estamos diante de um conjunto de fotografias impressas em tecido de dois por dois metros, suspensas de forma que possamos circular entre elas. Em cada uma das faces da malha têxtil temos uma imagem diferente, revelada conforme nos movimentamos pelo espaço expositivo. As fotografias são em preto e branco e apresentam forte contraste entre luz e sombra, característica recorrente no trabalho do artista.
Em fotografias realizadas no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, Akinbode apresenta cenas cotidianas captadas nas ruas.
Em uma delas, uma motocicleta está estacionada junto à fachada de um edifício. A moto ocupa a maior parte do enquadramento e aparece de perfil, voltada para a esquerda. Trata-se de uma moto robusta, com banco preto e longo, guidão alto e partes metálicas visíveis no motor. O veículo está apoiado sobre um piso com padrão ondulado em mosaico, formado por linhas curvas repetidas em preto e branco. Ao fundo aparecem elementos do ambiente urbano: uma porta, uma parede com canos aparentes e um vaso grande com plantas. A composição aproxima o objeto da arquitetura e do desenho do chão, criando uma cena silenciosa, sem presença humana.
Em outra fotografia, o enquadramento mostra uma esquina movimentada do bairro. Em primeiro plano, à esquerda, aparecem folhas grandes de uma planta que crescem junto a um poste. Junto ao poste está uma bicicleta, visível na foto apenas pelo banco e roda traseira. Em segundo plano, atravessando a rua pela faixa de pedestres, passa um homem captado em movimento e ligeiramente desfocado. Ao fundo, há um carro passando, também em desfoque, e, atrás dele, a fachada de um prédio com lojas no térreo e letreiros luminosos.
Nos registros realizados na Casa do Povo, centro cultural localizado no bairro do Bom Retiro, o artista apresenta diferentes momentos de convivência, criação e encontro.
Em uma das imagens, há uma mulher sentada sobre uma bancada, de costas para a câmera. Ela observa uma grande escultura instalada no centro de um salão amplo e iluminado, com piso de madeira em padrão geométrico. A mulher é loira, usa camiseta branca com a estampa de um felino estilizado e mantém a mão esquerda apoiada na cintura. À frente dela, posicionada no centro do espaço, se ergue a escultura; ela é ampla e curvada, semelhante a uma grande lâmina suspensa e visualmente leve. Ao fundo algumas pessoas registradas em desfoque atravessam o espaço.
Em outra fotografia, Akinbode registra um momento coletivo de encontro, ensaio ou apresentação: um grupo de cinco pessoas está sentado em cadeiras alinhadas, de costas para a câmera, formando uma pequena plateia. Há uma senhora de cabelos grisalhos, uma mulher negra com cabelos crespos, um homem branco de cabelos pretos e curtos e uma mulher branca de cabelos longos e pretos. Elas parecem conversar entre si enquanto observam uma ação ou ensaio que ocorre no centro do salão da Casa do Povo, mais ao fundo. Ali há um homem sentado no chão, de pernas cruzadas. O ambiente é amplo e aberto, com grandes janelas em último plano que deixam entrar a luz do dia.
O tecido em suspensão confere às imagens uma textura suave e o formato dupla-face estimula descobertas a cada passo. Ao atravessarmos o conjunto da obra, repetimos o gesto do artista: andar, observar e absorver parte do cotidiano da cidade, histórias que se revelam ao olhar do transeunte atento.