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6 set 2025–11 jan 2026
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Werewere Liking

Werewere Liking

Nathalia Grilo

 

A obra de Werewere Liking instaura um campo de poderosas energias, no qual escultura, palavra e mito não apenas coexistem, mas vibram na mesma frequência ritualística. As criações de Liking, compostas de elementos encontrados, reciclados e ressignificados, não são apenas formas que ocupam o espaço: são corpos encantados, inscrições vivas de memória e fabulação. Seus poemas dilatam essa experiência, reconfigurando a relação entre o verbo, a matéria e a espiritualidade, como se cada fragmento falasse a língua secreta do tempo.

Reunir, recompor, reinvocar: esses gestos se entrecruzam como virtuosas práticas contra o esquecimento. Em Liking, a reimaginação do processo criativo é também uma reestruturação da criatividade que pulsa em torno da comunidade, do crescimento coletivo, da construção e da busca de sentido. A artista nomeia esse campo de criação como Ki-Yi Mbock, conceito da tradição bassa, no Camarões, que remete ao conhecimento universal supremo. Nesse território, assim como nos tempos antigos, arte e vida não se apartam: as criações não apenas ocupam o espaço, mas o reorganizam, convertendo experiências em portais de autonomia.

Suas esculturas não são arquivos fixos, mas constelações móveis, em que passado, presente e futuro se emaranham num rizoma de potencialidades múltiplas. Cada peça rompe a linearidade histórica e instaura uma vivacidade expandida e densa, na qual aquilo que é rejeitado é reativado como elaboração de novas cosmogonias, com narrativa e política sobrepostas. Aqui, o mundo não se apresenta como um dado estático, mas como uma entidade de inscrição infinita.

A presença de Liking é, antes de tudo, uma força que opera como bússola cósmica, mapa para realidades múltiplas. A feitura que dela parte é pensamento, pulsação, um sopro nobre que tange o sensível. Ela nos entrega campos vibracionais, territórios de cruzo entre o espiritual e o terreno, o movimento da vida reescrita por meio do esculpir de palavras e formas, que, para ela, é como invocar a ancestralidade.

Seu trabalho não está apenas no mundo, mas instaura um modo outro de habitá-lo, tornando-se vestígios de futurações, algo que se afirma como método de uma vida digna, um convite para sentir a essência das coisas de modo agigantado, efeitos esses que frutificam na verve de uma mestra que vive em plenitudes de eterno movimento.

Nathalia Grilo
Pessoa mascarada com fantoche ao lado de um quadro
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Pessoa mascarada com fantoche ao lado de um quadro
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Mulher sentada ao lado de esculturas coloridas com um papel na mão
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Performer interpretando atrás de uma escultura colorida
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Performer interpretando atrás de uma escultura colorida
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Performers em volta de um quadro colorido
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Mulher com roupas coloridas em frente a um quadro com objetos de madeira na mão
Registro de performance de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Quadros e esculturas coloridas
Vista de obras de Werewere Liking durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

Werewere Liking (1950, Ngombas Bondé. Vive em Abidjan) é escritora, crítica, pintora, escultora, intérprete teatral e dançarina. Fundadora da companhia teatral Ki-Yi Mbock, desenvolve obras que entrelaçam tradições da África Ocidental e questões contemporâneas. Autodidata, aborda temas como modernidade, raça, opressão de gênero e exploração econômica, com ênfase na identidade e herança africanas. É autora da teoria feminista africana conhecida como “misovirismo”. Recebeu o Prêmio Prince Claus (2000) por suas contribuições culturais e o Prêmio Noma (2005) pelo livro La mémoire amputée.

Esta participação é apoiada por ifa – Institut für Auslandsbeziehungen.

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