A obra de Werewere Liking instaura um campo de poderosas energias, no qual escultura, palavra e mito não apenas coexistem, mas vibram na mesma frequência ritualística. As criações de Liking, compostas de elementos encontrados, reciclados e ressignificados, não são apenas formas que ocupam o espaço: são corpos encantados, inscrições vivas de memória e fabulação. Seus poemas dilatam essa experiência, reconfigurando a relação entre o verbo, a matéria e a espiritualidade, como se cada fragmento falasse a língua secreta do tempo.
Reunir, recompor, reinvocar: esses gestos se entrecruzam como virtuosas práticas contra o esquecimento. Em Liking, a reimaginação do processo criativo é também uma reestruturação da criatividade que pulsa em torno da comunidade, do crescimento coletivo, da construção e da busca de sentido. A artista nomeia esse campo de criação como Ki-Yi Mbock, conceito da tradição bassa, no Camarões, que remete ao conhecimento universal supremo. Nesse território, assim como nos tempos antigos, arte e vida não se apartam: as criações não apenas ocupam o espaço, mas o reorganizam, convertendo experiências em portais de autonomia.
Suas esculturas não são arquivos fixos, mas constelações móveis, em que passado, presente e futuro se emaranham num rizoma de potencialidades múltiplas. Cada peça rompe a linearidade histórica e instaura uma vivacidade expandida e densa, na qual aquilo que é rejeitado é reativado como elaboração de novas cosmogonias, com narrativa e política sobrepostas. Aqui, o mundo não se apresenta como um dado estático, mas como uma entidade de inscrição infinita.
A presença de Liking é, antes de tudo, uma força que opera como bússola cósmica, mapa para realidades múltiplas. A feitura que dela parte é pensamento, pulsação, um sopro nobre que tange o sensível. Ela nos entrega campos vibracionais, territórios de cruzo entre o espiritual e o terreno, o movimento da vida reescrita por meio do esculpir de palavras e formas, que, para ela, é como invocar a ancestralidade.
Seu trabalho não está apenas no mundo, mas instaura um modo outro de habitá-lo, tornando-se vestígios de futurações, algo que se afirma como método de uma vida digna, um convite para sentir a essência das coisas de modo agigantado, efeitos esses que frutificam na verve de uma mestra que vive em plenitudes de eterno movimento.