O documentário Comizi d’amore [Comícios de amor] (1964), de Pier Paolo Pasolini, desdobra um mosaico de verdades psicológicas capturadas por meio de perguntas diretas e sem rodeios feitas nas ruas da Itália. O filme expõe a complexidade das atitudes do público em relação à sexualidade e a tensão incômoda entre tradição e modernidade. Ao abordar o desconforto em torno de temas íntimos porém públicos, revela ansiedades e conflitos morais profundamente arraigados no cotidiano.
Mais de cinquenta anos depois, Sharon Hayes retoma e expande o estilo interrogativo e as composições de cena de Pasolini e entrevista indivíduos e grupos para sua série de vídeos Ricerche [Investigações] (2019-2024). Nessa obra, a artista propõe uma reflexão instigante sobre o poder da conversa pública, utilizando diálogos espontâneos e não roteirizados para explorar as interseções entre experiência pessoal, discurso político e normas sociais. Por meio desses encontros, Hayes desvela a complexa rede de verdades não ditas que moldam relações humanas e identidades.
Hayes entrelaça camadas complexas de intimidade, política e identidade por meio de formas documentais e performativas. Em Ricerche, ela se envolve profundamente com a linguagem, usando-a como ferramenta para criar uma estética da tensão entre palavra e silêncio, entre esferas públicas e privadas, entre vivência individual e história coletiva.
Há um ritmo subjacente em seu trabalho, uma cadência que desafia e expande a percepção do espectador sobre tempo, significado e experiência, elevando o mundano ao terreno do profundo. Ao longo da série em quatro partes, Hayes redesenha as fronteiras do documentário e da performance, oferecendo um olhar cru sobre a humanidade.
Em uma era na qual entrevistas de rua são frequentes nas plataformas digitais, o processo meticuloso de arquivamento e as conversas francas de Hayes questionam os limites do amor, da intimidade e das políticas em torno da sexualidade, convidando o público a confrontar as contradições de seus próprios desejos e estruturas sociais. Ricerche nos permite testemunhar a complexidade da experiência humana, em que cada palavra e silêncio carregam o peso do individual e do coletivo, do privado e do público. Em sua ambiguidade poética, Hayes nos convida a refletir sobre como falamos, amamos e lembramos, deixando no ar uma pergunta persistente: como navegamos os espaços entre nós?