As obras de Sadikou Oukpedjo parecem administrar o tempo por conta própria. A autonomia delas está manifestada na singularidade do tratamento dado às figuras, sobretudo nos gestos e expressões primordiais, dignos de uma vontade arqueológica, interessada mais pelo comportamento das formas do que pela exatidão anatômica. Ao mesmo tempo, não é raro observar na produção de Oukpedjo símbolos contemporâneos capazes de traduzir os conflitos geopolíticos ligados ao poder dos países imperialistas. Uma metralhadora de guerra e uma bandeira dos Estados Unidos sugerem contextualização crítica da atualidade. Esse cruzamento complexo entre passado e presente eleva sua produção ao estado de suspensão cronológica, confrontando e desafiando noções quaisquer de temporalidade.
No entanto, ainda existe outro tópico de sua produção comprometido com a revisão das regras terrenas: a força mágica que o artista representa e da qual é intérprete. Foi após a sua participação na Biennale de Dakar em 2014 que ele iniciou sua série de obras nas quais desenha figuras teriantrópicas, híbridos de animal com humano, muito comuns no imaginário que se criou sobre as pinturas rupestres.
Sadikou esquematiza esses corpos colossais em profunda transmutação, à maneira de entidades. Afastados da categoria humana, eles são desenhados como forças superiores em constante duelo entre si. Ainda que suas silhuetas e semblantes sejam representados de forma introspectiva, simulam frequentemente confronto direto, quando não estão fundidos em combate como se já estivessem imobilizados. Suas referências evocam mitos e seres fantásticos de diferentes culturas performando ações mundanas em um panteão ilustrado por cores etéreas e em situações envolvendo seres animalescos que beiram a fábula.
Igualmente, sua prática com esculturas em madeira, iniciada ainda antes, no final dos anos 1990, opera na dicotomia tempo ancestral e contemporâneo. E sugere, uma vez mais, corpos-entidades sempre confortáveis com seu estado físico, ainda que sob agigantamento das formas. Diferente dos trabalhos bidimensionais, no entanto, o híbrido de animal com humano aparece de forma mais tímida.
Ao descentralizar seus estudos da perspectiva do conhecimento humano, encontra no mundo espiritual outras possibilidades de leitura da realidade. Escolhe acessar o sensível através de outras cosmogonias a serviço da interpretação da psique humana, mas também das relações políticas inerentes à humanidade.