Entrevista de Raven para ¡COLORES!. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=5ryWiAEKdzI&t=205s>. Acesso: 2025.
Ao contrário da liturgia de uma missa tradicional, Voiceless Mass [Missa sem voz] (2021) não é centrada na voz humana. A obra, que consagrou Raven Chacon, artista nascido na Nação Navajo Diné, como o primeiro compositor indígena norte-americano a receber o Prêmio Pulitzer de Música, tem como elemento central a catedral de São João Evangelista, em Milwaukee, e seu órgão de tubos. O edifício, com sua arquitetura acústica imponente e seus simbolismos, torna-se ele próprio um sutil corpo ressonante dos conflitos que por séculos perpetuou. Como afirma Chacon, “essa peça tem sido uma espécie de metáfora para a inacessibilidade das vozes ao longo da história da Igreja – e também da história da colonização para a qual a Igreja contribuiu. E, no caso dos povos indígenas, isso levou à perda da própria linguagem”.1
Há quase trinta anos, a presença da voz indígena como expressão das forças insurgentes na história brasileira ganhou corpo no álbum Roots [Raízes] (1996), da banda Sepultura. Nas faixas “Ratamahatta” e “Itsari”, os cantos do povo Xavante atravessam a paisagem sonora do heavy metal, rompendo com as estéticas dominantes do gênero e aproximando uma geração de fãs das lutas dos povos originários por seus territórios e modos de vida. É do encontro entre as trajetórias de Raven Chacon, Iggor Cavalera, ex-baterista e fundador do Sepultura, e Laima Leyton, produtora musical radicada em Londres, integrante do duo Mixhell e atuante nas interseções entre performance, pedagogia e ativismo sonoro, que nasce o projeto a ser apresentado na 36a Bienal de São Paulo. Ao lado de músicos Xavante que participaram da gravação de Roots e com a articulação local do cacique Cipassé Xavante, da aldeia Wederã (Canarana, Mato Grosso), os artistas desenvolvem uma composição multicanal que, de forma poética, desfaz os ritmos dos motores da cidade (“… undo the urban motor-rhythms of São Paulo”) para fazer emergir a pulsação da terra e das vozes a ela conectadas.
A crítica à linguagem como estrutura de poder – iniciada em Voiceless Mass e expandida no diálogo com Roots – se aprofunda ainda mais na abordagem de Chacon à própria escrita musical. O direito à própria voz e linguagem é um exercício de humanidade. Assim como as línguas indígenas foram suprimidas pela imposição dos idiomas europeus, a história da música consagrou a partitura tradicional como a forma legítima de escrita sonora. Em For Zitkála–Šá [Para Zitkála-Šá] (2017-2020), Chacon homenageia treze artistas indígenas e mestiças por meio de partituras gráficas que funcionam como retratos sonoros, compostos por símbolos, formas e instruções abertas à interpretação. Ao trabalhar com outras formas de notação, performance e registro musical, Chacon evidencia que a sistematização e a metodologia de ensino ocidental constituem apenas uma entre inúmeras possibilidades – e que essa nem sequer é adotada pela maioria das pessoas que exerce a música no mundo.