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6 set 2025–11 jan 2026
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Raven Chacon, Iggor Cavalera e Laima Leyton, em colaboração com membros da comunidade Etenhiritipa Xavante

Raven Chacon, Iggor Cavalera e Laima Leyton, em colaboração com membros da comunidade Etenhiritipa Xavante

1.

Entrevista de Raven para ¡COLORES!. Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=5ryWiAEKdzI&t=205s>. Acesso: 2025.

Leonardo Matsuhei

 

Ao contrário da liturgia de uma missa tradicional, Voiceless Mass [Missa sem voz] (2021) não é centrada na voz humana. A obra, que consagrou Raven Chacon, artista nascido na Nação Navajo Diné, como o primeiro compositor indígena norte-americano a receber o Prêmio Pulitzer de Música, tem como elemento central a catedral de São João Evangelista, em Milwaukee, e seu órgão de tubos. O edifício, com sua arquitetura acústica imponente e seus simbolismos, torna-se ele próprio um sutil corpo ressonante dos conflitos que por séculos perpetuou. Como afirma Chacon, “essa peça tem sido uma espécie de metáfora para a inacessibilidade das vozes ao longo da história da Igreja – e também da história da colonização para a qual a Igreja contribuiu. E, no caso dos povos indígenas, isso levou à perda da própria linguagem”.1

Há quase trinta anos, a presença da voz indígena como expressão das forças insurgentes na história brasileira ganhou corpo no álbum Roots [Raízes] (1996), da banda Sepultura. Nas faixas “Ratamahatta” e “Itsari”, os cantos do povo Xavante atravessam a paisagem sonora do heavy metal, rompendo com as estéticas dominantes do gênero e aproximando uma geração de fãs das lutas dos povos originários por seus territórios e modos de vida. É do encontro entre as trajetórias de Raven Chacon, Iggor Cavalera, ex-baterista e fundador do Sepultura, e Laima Leyton, produtora musical radicada em Londres, integrante do duo Mixhell e atuante nas interseções entre performance, pedagogia e ativismo sonoro, que nasce o projeto a ser apresentado na 36a Bienal de São Paulo. Ao lado de músicos Xavante que participaram da gravação de Roots e com a articulação local do cacique Cipassé Xavante, da aldeia Wederã (Canarana, Mato Grosso), os artistas desenvolvem uma composição multicanal que, de forma poética, desfaz os ritmos dos motores da cidade (“… undo the urban motor-rhythms of São Paulo”) para fazer emergir a pulsação da terra e das vozes a ela conectadas.

A crítica à linguagem como estrutura de poder – iniciada em Voiceless Mass e expandida no diálogo com Roots – se aprofunda ainda mais na abordagem de Chacon à própria escrita musical. O direito à própria voz e linguagem é um exercício de humanidade. Assim como as línguas indígenas foram suprimidas pela imposição dos idiomas europeus, a história da música consagrou a partitura tradicional como a forma legítima de escrita sonora. Em For Zitkála–Šá [Para Zitkála-Šá] (2017-2020), Chacon homenageia treze artistas indígenas e mestiças por meio de partituras gráficas que funcionam como retratos sonoros, compostos por símbolos, formas e instruções abertas à interpretação. Ao trabalhar com outras formas de notação, performance e registro musical, Chacon evidencia que a sistematização e a metodologia de ensino ocidental constituem apenas uma entre inúmeras possibilidades – e que essa nem sequer é adotada pela maioria das pessoas que exerce a música no mundo.

 

Leonardo Matsuhei

Raven Chacon (1977, Fort Defiance, Nação Navajo. Vive em Nova York) é compositor, performer e artista de instalações. Formado em música pela University of New Mexico e mestre pelo California Institute of the Arts, é reconhecido por explorar interseções entre som, espaço e histórias indígenas. Em 2022, tornou-se o primeiro nativo americano a receber o Prêmio Pulitzer de Música pela composição Voiceless Mass, e em 2023 foi laureado com a MacArthur Fellowship. Seu trabalho foi apresentado em eventos como a Whitney Biennial (Nova York), documenta 14 (Kassel), Bienal de Sydney, Vancouver Art Gallery e Musée d’art contemporain de Montréal. Atua também como compositor sênior e mentor no Native American Composer Apprentice Project (NACAP).

Iggor Cavalera (Belo Horizonte, 1970. Vive em Londres) é baterista, produtor e artista sonoro. Cofundador da banda de thrash metal Sepultura, atualmente integra projetos como Cavalera Conspiracy, Soulwax, Petbrick e o duo eletrônico Mixhell, criado em 2006 com Laima Leyton. Desde 2004, atua como DJ e produtor de música eletrônica, tendo se apresentado em festivais como Glastonbury, Bestival e Reading. Em 2016, passou a integrar o Soulwax. Com o Petbrick, explora fusões de bateria pesada, noise e eletrônicos. A partir de 2017, montou um estúdio próprio e, em 2019, passou a compor músicas experimentais com sintetizadores modulares, unindo sons etéreos, batidas eletrônicas e bateria ao vivo. Atua como produtor e performer em contextos que cruzam música, arte e ativismo.

Laima Leyton (São Paulo. Vive em Londres) é artista sonora, musicista e performer. Integrante da dupla Mixhell com Iggor Cavalera e colaboradora do grupo Soulwax, lançou seu álbum solo Home (2019) pelos selos DEEWEE e The Vinyl Factory, explorando os limites entre criatividade e vida doméstica. Participou da residência na Gasworks (Londres) com Lexy Morvaridi, com quem formou a dupla InnerSwell, baseada na pedagogia de Pauline Oliveros. Atua com a organização In Place of War, promovendo educação musical em zonas de conflito e desenvolvendo o coletivo GRRRL.