Entrevista com Yan Ciret publicada em Chroniques de la scène monde. Paris: Éditions La Passe du Vent, 2000.
Como seriam os momentos de quietude e calmaria em meio ao burburinho de um evento como a Bienal de São Paulo? Que espaços de repouso coletivo poderíamos imaginar, e como eles transformariam a experiência do público enquanto seus corpos se movem pelos corredores repletos de obras?
Em diálogo com a proposta curatorial desta edição, Precious Okoyomon, artista dos Estados Unidos com ascendência nigeriana, apresenta Sun of Consciousness. God Blow Thru Me – Love Break Me [Sol da consciência. Deus sopra através de mim – o amor me quebra] (2025), instalação que ressignifica parte do Pavilhão Ciccillo Matarazzo. Com obras ousadas e monumentais, Okoyomon transita entre poesia, comida e instalação, combinando elementos sonoros com materiais orgânicos em constante transformação – pedras, plantas, árvores e musgos. Transitando sem esforço entre várias disciplinas, assume com naturalidade os papéis de artista visual, poeta, chef, cineasta e de quem compõe músicas, tendo a poesia e a palavra poética como fios condutores. Como revela em entrevistas, muitos de seus poemas germinaram antes dos objetos, tornando-se sementes de suas criações visuais.
Ao destacar a vulnerabilidade humana e nossas relações complexas e intrínsecas com o não humano, Okoyomon, nesta obra comissionada, dirige seu olhar metafórico para o Cerrado e seu ecossistema aparentemente caótico e frágil, traçando paralelos entre um dos maiores biomas do Brasil e a sociedade. Aqui o caos, frequentemente atribuído tanto à natureza quanto à humanidade, não remete a cacofonia ou desordem. Refere-se antes às relações simbióticas e imprevisíveis que emergem dos múltiplos encontros interdependentes entre seres animados e inanimados, formando igualmente a espinha dorsal do Cerrado e de nossas sociedades. Aquilo que Édouard Glissant denomina de Chaos-Monde1 em reflexão sobre os choques e encontros culturais.
Ecoando o provérbio em pidgin “Bodi no be fayawood” [O corpo não é lenha para queimar], a obra Sun of Consciousness. God Blow Thru Me – Love Break Me enfatiza a necessidade de acolher o descanso e o refúgio como espaços produtivos, especialmente num mundo em constante transformação e ritmado pela lógica capitalista.