AbdouMaliq Simone, “People as Infrastructure: Intersecting Fragments in Johannesburg”.Public Culture, v.16, n.3, 2004, pp.407-429.
Ibid.
No encerramento de um de seus ensaios fundamentais, “People as Infrastructure: Intersecting Fragments in Johannesburg” [Pessoas como infraestrutura: fragmentos que se cruzam em Joanesburgo], o sociólogo AbdouMaliq Simone discute o aprofundamento da miséria urbana africana, destacando as colaborações econômicas e culturais entre moradores aparentemente marginalizados pela vida nas cidades.1 Tomando Joanesburgo como estudo de caso para refletir sobre a precariedade enfrentada por populações em metrópoles em expansão global, AbdouMaliq descreve a situação como “real e alarmante”, acrescentando que para “um número crescente de africanos urbanos, suas cidades já não oferecem perspectivas de melhoria em seus meios de vida ou em formas modernas de existência”.2
Seja nas cidades de Dacar, Joanesburgo, São Paulo – ou na Europa –, somos constantemente confrontados com a precariedade e a fragilidade de nossos corpos no espaço público. Por meio de sua nova obra comissionada, Guardians of Cosmos [Guardiões dos cosmos] (2025), a artista Pélagie Gbaguidi nos convida a refletir sobre essas questões urgentes por meio de um prisma arquitetônico e urbanístico. A instalação é composta de estruturas semelhantes a tendas, que remetem aos abrigos improvisados que brotam nas cidades em rápida expansão ao redor do mundo, causados por uma série de males, entre os quais se destaca a crise habitacional desenfreada. Com frequência construídos com materiais reciclados ou encontrados, esses abrigos – inicialmente pensados como soluções temporárias – acabam se tornando permanentes, empurrando seus
habitantes para uma espécie de “provisoriedade permanente”.
Espalhadas por todo o espaço, as estruturas em forma de tenda são feitas com armações de madeira que sustentam pinturas sobre tela. As telas são duplaface: no verso, encontram-se plantas baixas e mapas desenhados à mão de casas típicas da África Ocidental, assim como, em uma delas, a transcrição do preâmbulo da Constituição Brasileira, que consagra a moradia como um direito fundamental. Esses versos se desdobram como uma cartografia composta do habitat coletivo – simultaneamente imaginado e herdado – que ecoa arquiteturas tradicionais da África Ocidental, como explorado em Habiter un monde [Habitar um mundo] (2005), de Jean-Paul Bourdier e Trinh T. Minh-ha. Esse gesto nos instiga a refletir sobre a interseção
entre os direitos humanos fundamentais e as realidades espaciais vividas, inscritas em diversos marcos legais e improvisações cotidianas.
Numerada até cinco, em referência aos dedos de uma mão, a instalação evoca de forma metafórica a ideia de estender a mão a quem precisa, confrontando o público com a insensibilidade e a falta de cuidado dispensadas a uma esfera específica da sociedade nas paisagens urbanas – uma esfera constantemente relegada às margens e, em certa medida, invisibilizada pela normalização de suas condições precárias.