Nari Ward reúne histórias de objetos e lugares, transformando-os em narrativas poderosas. Os materiais que ele escolhe – sejam eles carrinhos de bebê descartados, cadarços de sapatos, mangueiras de incêndio usadas ou bolas de algodão – carregam histórias em camadas e ecos de experiências vividas. Como um arqueólogo do cotidiano, Ward escava resquícios da cultura de consumo, traumas sociais e histórias diaspóricas, expondo tensões entre memória e esquecimento, identidade e pertencimento. Por meio de sua prática multidisciplinar e inventiva, ele converte essas relíquias abandonadas em espaços de reflexão e recuperação, unindo memória pessoal e coletiva, histórias privadas e públicas, e abordando questões de justiça social, poder e histórias negligenciadas.
Spring Seed [Semente da primavera] (2025), seu novo projeto para a 36ª Bienal de São Paulo, traça os emaranhados culturais e comerciais intangíveis da Jamaica – onde Ward nasceu e cresceu antes de migrar para Nova York, aos doze anos de idade –, do Brasil e do Japão, por meio da trajetória do café, uma mercadoria profundamente ligada às economias trabalhistas, ao consumismo global e às histórias coloniais, mas igualmente associada ao desejo e ao lazer. No centro da instalação, uma arena fechada feita de molas de cama abriga um novo vídeo que entrelaça imagens das viagens de Ward, desde o bairro da Liberdade, em São Paulo, onde se concentra a comunidade nipo-brasileira, até a Bahia e a região cafeeira de Blue Mountain, na Jamaica. Símbolo de luxo e exclusividade, o café Blue Mountain é cultivado em pequenas quantidades; a maior parte de sua produção é exportada para o Japão, onde é valorizado pela raridade e refinamento. Dentro desse espaço íntimo, no qual os espectadores precisam entrar, um sistema de alto-falantes semelhante ao de um altar, coberto com capas de algodão engomado infundido com grãos de café Blue Mountain, funciona como um elemento escultural e multissensorial, sobrepondo gravações sonoras da Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, em São Paulo – construída em um túmulo ancestral de pessoas negras e indígenas. Essas texturas sonoras e visuais fazem eco a trabalhos anteriores de Ward, como Spellbound [Enfeitiçado] (2015), que explorou as histórias conturbadas de escravidão, colonialismo, resiliência e emancipação da cidade de Savannah, na Geórgia.
Por meio de suas montagens carregadas, Ward não apenas recupera materiais descartados, mas também reimagina o potencial que eles carregam. Spring Seed amplia essa exploração contínua da coletividade, mapeando fluxos e trocas invisíveis e complicando as narrativas dominantes. Ao entrelaçar a linguagem visual, o som e o aroma, e ao empregar imagens em movimento – um meio inerentemente capaz de atravessar o tempo e o espaço –, Ward adota uma abordagem não linear que ativa a imaginação dos espectadores, revelando as energias e as forças ocultas que moldam um senso de comunidade e pertencimento. Ao fazer isso, ele cria um espaço onde a memória resiste ao apagamento e o passado fala poderosamente ao presente – tal qual uma semente que brota para a vida.