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6 set 2025–11 jan 2026
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Nari Ward

Nari Ward

Roberta Tenconi
Traduzido do inglês por Mariana Nacif Mendes e Nicolas Brandão

 

Nari Ward reúne histórias de objetos e lugares, transformando-os em narrativas poderosas. Os materiais que ele escolhe – sejam eles carrinhos de bebê descartados, cadarços de sapatos, mangueiras de incêndio usadas ou bolas de algodão – carregam histórias em camadas e ecos de experiências vividas. Como um arqueólogo do cotidiano, Ward escava resquícios da cultura de consumo, traumas sociais e histórias diaspóricas, expondo tensões entre memória e esquecimento, identidade e pertencimento. Por meio de sua prática multidisciplinar e inventiva, ele converte essas relíquias abandonadas em espaços de reflexão e recuperação, unindo memória pessoal e coletiva, histórias privadas e públicas, e abordando questões de justiça social, poder e histórias negligenciadas.

Spring Seed [Semente da primavera] (2025), seu novo projeto para a 36ª Bienal de São Paulo, traça os emaranhados culturais e comerciais intangíveis da Jamaica – onde Ward nasceu e cresceu antes de migrar para Nova York, aos doze anos de idade –, do Brasil e do Japão, por meio da trajetória do café, uma mercadoria profundamente ligada às economias trabalhistas, ao consumismo global e às histórias coloniais, mas igualmente associada ao desejo e ao lazer. No centro da instalação, uma arena fechada feita de molas de cama abriga um novo vídeo que entrelaça imagens das viagens de Ward, desde o bairro da Liberdade, em São Paulo, onde se concentra a comunidade nipo-brasileira, até a Bahia e a região cafeeira de Blue Mountain, na Jamaica. Símbolo de luxo e exclusividade, o café Blue Mountain é cultivado em pequenas quantidades; a maior parte de sua produção é exportada para o Japão, onde é valorizado pela raridade e refinamento. Dentro desse espaço íntimo, no qual os espectadores precisam entrar, um sistema de alto-falantes semelhante ao de um altar, coberto com capas de algodão engomado infundido com grãos de café Blue Mountain, funciona como um elemento escultural e multissensorial, sobrepondo gravações sonoras da Capela de Nossa Senhora das Almas dos Aflitos, em São Paulo – construída em um túmulo ancestral de pessoas negras e indígenas. Essas texturas sonoras e visuais fazem eco a trabalhos anteriores de Ward, como Spellbound [Enfeitiçado] (2015), que explorou as histórias conturbadas de escravidão, colonialismo, resiliência e emancipação da cidade de Savannah, na Geórgia.

Por meio de suas montagens carregadas, Ward não apenas recupera materiais descartados, mas também reimagina o potencial que eles carregam. Spring Seed amplia essa exploração contínua da coletividade, mapeando fluxos e trocas invisíveis e complicando as narrativas dominantes. Ao entrelaçar a linguagem visual, o som e o aroma, e ao empregar imagens em movimento – um meio inerentemente capaz de atravessar o tempo e o espaço –, Ward adota uma abordagem não linear que ativa a imaginação dos espectadores, revelando as energias e as forças ocultas que moldam um senso de comunidade e pertencimento. Ao fazer isso, ele cria um espaço onde a memória resiste ao apagamento e o passado fala poderosamente ao presente – tal qual uma semente que brota para a vida.

Roberta Tenconi
Traduzido do inglês por Mariana Nacif Mendes e Nicolas Brandão
Tela de vídeo dentro de uma estrutura de molas de colchão com uma estrutura de caixas de som
Vista de Spring Seed, de Nari Ward, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Vista de Spring Seed, de Nari Ward, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Vista de Spring Seed, de Nari Ward, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Vista de Spring Seed, de Nari Ward, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Vista de Spring Seed, de Nari Ward, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Vista de Spring Seed, de Nari Ward, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

Nari Ward é um artista conhecido por suas instalações escultóricas compostas de materiais descartados coletados em seu bairro. Ao recontextualizar objetos como carrinhos de compras, televisores e cadarços, Ward aborda questões sociais e políticas relacionadas à raça, pobreza e cultura do consumo. Recebeu o Vilcek Prize for Fine Arts e o Rome Prize in Visual Arts. Seu trabalho foi apresentado no Institute of Contemporary Art (Boston), na Whitney Biennial (Nova York), no Massachusetts Museum of Contemporary Art (North Adams), no Walker Art Center (Minneapolis) e no Pérez Art Museum Miami. Em 2019, foi homenageado com o Great Immigrant Award pela Carnegie Corporation de Nova York.