A prática de Minia Biabiany entrelaça questões de habitat, corpos humanos e mais-que-humanos e linguagem. Ela cria ambientes imersivos poéticos que convidam o público a ler e sentir as camadas das histórias coloniais e seus legados, questiona as relações com os espaços, tanto mentais quanto físicos, e reapropria os métodos de aprendizado e cura como ferramentas. Ao desenterrar vestígios do sistema colonial de plantations e assimilação que ainda impacta o arquipélago de Guadalupe, usa plantas como guias para observar silêncios, conhecimentos perdidos ou fragmentos esquecidos. Percorrer suas instalações é um convite para se engajar e projetar fios narrativos pessoais e coletivos, mantidos parcialmente abertos. Biabiany constrói “coreografias para os olhares”, exigindo presença e uma mudança em nosso ritmo de percepção e atenção. Suas diversas instalações são pensadas como frases que continuam um mesmo canto.
No crioulo de Guadalupe, zyé an kann, ou “olho da cana”, refere-se aos nós que marcam o caule da cana-de-açúcar, de onde novos brotos podem nascer. Biabiany joga com esse ditado popular e, sem caules, transforma os nós da cana em 400 olhos que nos observam enquanto rasgam folhas secas de cana. Esses olhares possibilitam ver e ser vistos pelos homens e mulheres escravizados, forçados a cultivar canaviais, mas também conectam-se com ancestralidades e memórias transmitidas. Trabalhando há anos em sua conexão com a linhagem feminina, Biabiany propõe aqui o que chama de “pontuações”, pequenas cerâmicas suspensas que operam como metáforas ou citações relacionadas a objetos, figuras, emoções e histórias das mulheres que a precederam. Sua verticalidade dialoga com recipientes horizontais de água que refletem o teto. Esses círculos de água negra são portais para que se possa olhar de diferentes perspectivas, mas também integram nossa imagem ao que nos rodeia. O solo está acima de nós, próximo, falante, mas sussurrante. Junto a todos esses elementos, o som da instalação é uma colaboração com o designer sonoro Thierry Girard (Thyeks), estruturado em três movimentos, como um ciclo natural: o chamado inicial (despertar dos vivos, ressonâncias profundas e lentas); a migração (texturas em transformação, movimento fluido); e a dispersão (fragmentação e propagação no espaço, com ecos imprevisíveis).
Não é um jardim florescente que nos recebe, mas a prática extrativista da monocultura. Introduzida durante a era colonial, essa prática do cultivo e colheita monocultural de cana-de-açúcar, algodão e banana provocou a erosão e destruição dos solos. O canavial não é definido apenas pelo confinamento e extração, mas também por momentos de opacidade escolhida, em que figuras desafiam a visibilidade. Evocando cenas de fuga, marronagem e ocultação, esses olhos desencarnados e as vozes que os seguem simbolizam a opacidade intencional do espaço rural negro.