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6 set 2025–11 jan 2026
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Mao Ishikawa

Mao Ishikawa

1.

What Can I Do?. Tóquio: Tokyo Opera City Cultural Foundation, 2023 (catálogo de exposição).

Leonardo Matsuhei

 

Em 1972, ainda em meio à Guerra Fria, a ilha de Okinawa foi reincorporada ao Japão após 25 anos de ocupação militar estadunidense. Embora a administração tenha sido oficialmente transferida para o governo japonês, acordos bilaterais de segurança permitiram a permanência das bases militares, consolidando Okinawa como um dos principais postos estratégicos dos Estados Unidos na região do Pacífico. Nesse contexto nasce o livro de fotografias Hot Days in Camp Hansen!! [Dias quentes no Camp Hansen!!] (1975-1977), da fotógrafa Mao Ishikawa, reeditado em 2017 sob o título Red Flower, The Women of Okinawa [Flor vermelha, as mulheres de Okinawa].

As imagens produzidas por Ishikawa são protagonizadas por dois grupos sociais profundamente enraizados no cotidiano okinawano dos anos 1970: os soldados estadunidenses e as mulheres da cidade de Kin, que trabalhavam nos bares ao redor do acampamento Hansen e frequentemente mantinham relações afetivas e sexuais com esses homens. Recusando uma abordagem fotojornalística acusatória ou exotizante, Ishikawa não apresenta uma denúncia ao histórico de exploração perpetrado pelas forças militares. Em vez disso, revela uma complexa rede de afeto e solidariedade entre indivíduos que compartilham sentimentos e uma vida comum – soldados de baixa patente, em sua maioria negros e deslocados de seu país, e mulheres okinawanas em funções subalternizadas, vivendo em um território historicamente marginalizado em relação ao Estado japonês.

Mao Ishikawa jamais se colocou como observadora externa ao universo que retratava. Em suas próprias palavras: “Esse não é um relatório de infiltração. Eu não pretendia tirar fotografias ‘às escondidas’ a partir da perspectiva de uma espectadora. […] As imagens só começam a acontecer quando eu entro em cena. É, sem dúvida, um documentário – e, ao mesmo tempo, um registro emocional meu. Por isso era importante trabalhar em um bar para soldados estadunidenses. Eu queria me tornar uma mulher Kin eu mesma”.1

Em sintonia com o espírito contestatório da juventude okinawana dos anos 1970 – influenciada por movimentos anti-imperialistas internacionais, pelos protestos contra a Guerra do Vietnã e pelas lutas por direitos civis nos Estados Unidos –, Ishikawa ultrapassa as fronteiras da ilha e viaja à Filadélfia. Lá, passa cerca de dois meses convivendo com Myron Carr, seu amigo e ex-soldado. Com um olhar radicalmente humano, ela retrata o contexto de origem dos homens com quem compartilhava o cotidiano em Okinawa. Longe do ambiente militarizado, suas fotos capturam cenas de encontros entre amigos e familiares, crianças brincando, conversas descontraídas no sofá e caminhadas pelas ruas da cidade.

Leonardo Matsuhei

Mao Ishikawa (1953, Ōgimi. Vive em Tomigusuku) é fotógrafa e ativista, reconhecida por documentar comunidades em Okinawa e por abordar criticamente a presença militar dos EUA na região. Sua obra foca em retratar garotas de bares, artistas, soldados e outros membros de comunidades marginalizadas, oferecendo uma perspectiva íntima e direta sobre essas realidades sociais. Destaca-se pela abordagem imersiva à fotografia, vivendo ou trabalhando em estreita proximidade com seus retratados para capturar a essência de seus ambientes e experiências. Seu trabalho foi exibido em instituições como Yokohama Museum of Art, Queensland Art Gallery e MoMA PS (Nova York), entre outras. Recebeu o Lifetime Achievement Award pela Photographic Society of Japan.

Esta participação tem apoio do National Center for Art Research.

 

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