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6 set 2025–11 jan 2026
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Kamala Ibrahim Ishag

Kamala Ibrahim Ishag

Billy Fowo
Traduzido do inglês por Sylvia Monasterios

 

Desde os primeiros rabiscos da infância até as obras artísticas maduras que marcam sua trajetória artística ao longo das últimas seis décadas, Kamala Ibrahim Ishag, uma das artistas modernistas mais influentes do Sudão, criou obras profundamente pessoais e imersas em ressonância espiritual, que refletem sua linguagem visual única, explorando mundos interiores, conexões ancestrais e a complexa relação entre o visível e o invisível. Inspiradas por práticas espirituais e devocionais, como as cerimônias Zar, suas obras abordam sobretudo a condição da mulher na sociedade.

Na Bienal, destaca-se a obra Dinner [Jantar] (2022), uma peça emblemática do interesse de Ishag por rituais domésticos e espaços comunitários. A obra retrata cenas de intimidade entre figuras femininas reunidas ao redor de mesas, destacando que o ato de comer transcende o físico, e pode se tornar uma experiência psíquica e emocional compartilhada. Em People [Pessoas] (2022), a representação das figuras humanas afasta-se do realismo, aproximando-se da abstração e do simbolismo. Os indivíduos não são definidos por traços faciais ou expressões, mas por seus contornos e posturas. Envolvidos por uma forma esférica cercada de árvores, a obra pode ser lida como um compromisso da artista em retratar a alma coletiva, mais do que o eu individual. Faces [Rostos] (2017) aborda a identidade de maneira mais íntima, porém não convencional. Feita em tons cinzentos, a peça apresenta uma multiplicidade de máscaras ou vasos – rostos carregando histórias, espíritos e emoções que espelham as condições tensas e insuportáveis impostas às mulheres em sociedades patriarcais.

Em Guarding Angels [Anjos da guarda] (2015), Ishag apresenta protetores espirituais não como figuras celestiais, mas como presenças etéreas entrelaçadas ao mundo terreno, representado por objetos domésticos como cadeiras e mesas. Esses guardiões parecem sem rosto e sem forma, sugerindo que seu poder reside na influência sutil e na força invisível. Inspirada em grande parte por contos populares narrados pelas mulheres de sua família, a obra propõe que elas, em especial, carregam o duplo fardo e a dádiva da guarda. Por fim, Two Figures in Two Balls [Duas figuras em duas esferas] (2016) pode ser interpretada como uma exploração de temas como dualidade e enclausuramento. Retratando duas figuras isoladas mas conectadas, a obra convida à introspecção. O uso de linhas suaves e cores mescladas cria uma sensação de atemporalidade, como se esses seres existissem em um estado eterno de meditação.

Extensa mas não exaustiva, essa seleção revela a profunda sensibilidade de Kamala Ibrahim Ishag frente às dimensões espirituais da experiência humana, desafiando narrativas lineares ao abraçar o poder feminino e a interconexão entre os vivos, os mortos e o mundo natural.

Billy Fowo
Traduzido do inglês por Sylvia Monasterios

Kamala Ibrahim Ishag (Omdurman, 1939. Vive em Sharjah) foi uma das primeiras mulheres a se formar pela Faculdade de Belas Artes de Cartum em 1963. Aprofundou seus conhecimentos em litografia, tipografia e ilustração. Sua obra, enraizada na identidade cultural sudanesa, explora temas espirituais, místicos e sociais. Exibiu na Sharjah Art Foundation; Prince Claus Fund (Amsterdã); Shibrain Art Centre (Cartum); Museu Nacional do Sudão (Cartum); Akhnaton Gallery (Cairo); Whitechapel Gallery (Londres); e no National Museum of Women in the Arts (Washington). Suas obras integram coleções como a Jordan National Gallery (Amã) e o MoMA (Nova York).

Esta participação tem apoio da Arab Fund for Arts and Culture.