Myrna Ayad, “Huguette Caland: A Life in Lines, Love, and Liberation”. Art|Basel, 13 fev. 2025. Disponível em: www.artbasel.com/stories/huguette-caland-lebanese-madridmuseo-reina-sofia. Acesso: 2025.
Compreender as obras de Huguette Caland (1931-2019) é mergulhar em temas relativos a identidade, feminismo e corpo, entrelaçados com a riqueza cultural de sua herança oriental e a ousadia do modernismo ocidental. Transcendendo seus antecedentes pessoais e políticos, a arte interdisciplinar de Caland é inovadora, na qual abstração e figuração dançam juntas, fundindo fluidez e forma para celebrar a sensualidade, o desejo e a autoexpressão íntima.
Seus trabalhos mais antigos, moldados pelas tradições figurativas libanesas dos anos 1950 e 1960 libanesas, estudavam a forma humana, especialmente o corpo feminino. Essas obras iniciais, ricas em emoção e sensualidade, abriram caminho para uma linguagem mais abstrata nos anos 1970, quando ela se mudou para Paris e depois para Los Angeles, no fim da década de 1980. Desde então, sua arte acolheu formas curvilíneas e orgânicas que evocavam o corpo, representado ora de modo mais explícito, ora menos explícito, como em Parenthèse I [Parêntese I] (1971) e Bribes de corpes [Pedaços de corpos] (1973).
Na obra de Caland, a abstração é vista como um receptáculo para o físico, capturando sua essência sem nunca sucumbir ao literal. Sua exploração do feminino era central para sua visão. Ainda assim, suas obras nunca representaram mulheres simplesmente; elas encarnavam um sentido livre e sem restrições da feminilidade. Por meio de linhas amplas e cores vibrantes, Caland pintou não só o corpo, mas a própria essência do desejo, da vulnerabilidade e da força.
Em Homage to Pubic Hair [Homenagem aos pelos pubianos] (1992), ela usa uma linha de lápis para fazer o contorno da forma feminina, particularmente os lábios vaginais, com divertidos redemoinhos pubianos pintados com cores quentes diluídas.
Ela disse certa vez: “A linha é bela… Sou uma pessoa de linhas”.1 Ao longo de sua carreira, a linha teceu seu caminho ao longo de cada canto de sua prática, serpenteando por desenhos delicados e seguindo por pinturas sobre linho, tela e madeira – uma técnica artística de uma jornada ininterrupta, na qual o lápis move-se do topo da página até o seu fim, deixando um traço de continuidade em seu rastro. Seu uso da abstração não era só uma escolha artística, mas um modo de destilar a essência da experiência humana, capturando tanto a fisicalidade de seus objetos quanto sua profundidade emocional.
A 36ª Bienal de São Paulo traz uma seleção do legado de Huguette Caland, que convida o público a se conectar em um nível emocional e imaginativo com as linhas e formas que ela conjurou. Esse equilíbrio delicado entre sugestão e forma imbuiu sua arte de uma ressonância atemporal. Cada obra persegue os sussurros dos momentos mais íntimos com os quais o público pode se identificar.