Em Long Long Long Ago [Muito, muito, muito tempo atrás] (2025), Helena Uambembe imagina a ruptura catastrófica de um tempo de equilíbrio, harmonia e ocultismo há muito esquecido. Trata-se da cisão de duas entidades paralelas, dois iguais e opostos – nêmesis. Neste caso, irmãos gêmeos gigantes que travam uma batalha constante apesar de suas semelhanças. Sua rivalidade violenta, que parte a terra, obscurece aqueles que mais sofrem com essa fratura, como as pequenas criaturas que vivem entre eles, cujo esforço é quase invisível. Seus alertas sobre os perigos causados pelos gigantes não são ouvidos nem levados em consideração.
Comissionada para a 36ª Bienal de São Paulo, a obra de Uambembe retorna ao meio familiar do vídeo, onde sombra e luz se entrelaçam com a narração hipnótica da própria artista. A obra é introduzida por uma nova dimensão de sua prática: um mural pintado na entrada da cabine de projeção. Esse meio tem se tornado parte integrante da linguagem visual de Uambembe, marcada por representações de presenças espectrais e zonas de polaridade, expressas por meio de uma combinação precisa de cores ácidas e apagadas, e da integração da repetição e da releitura de arquivos.
Para além do conceito de deriva continental, Long Long Long Ago reconta a dramática separação entre duas paisagens espelhadas: o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e o Morro do Moco, em Huambo, Angola – país onde os pais de Uambembe nasceram e do qual fugiram durante a guerra civil, não rumo à segurança, mas a uma nova realidade traumática. Seu pai estava entre os homens angolanos recrutados em campos de refugiados na Namíbia para integrar o 32º Batalhão da era do apartheid na África do Sul; sua mãe foi uma das mulheres forçadas a casar e constituir família em poucas semanas. Após a Guerra Fria, o batalhão foi transferido para Pomfret, na África do Sul, onde os moradores foram posteriormente obrigados a minerar amianto, sendo deixados em uma cidade em ruínas marcada pela vergonha política e pelo colapso. Essa comunidade – lusófona, isolada e estigmatizada – moldou a prática de Uambembe por meio de uma herança complexa de migração forçada e trauma geracional.
A narração de Uambembe, incorporada à imagem em movimento e introduzida por um mural que atua como um limiar, reconta mitologias gregas e folclores africanos. Mas não se trata apenas de fabulação; a evocação de um equilíbrio há muito perdido fala de uma condição persistente: ciclos de trauma enraizados em conflitos entre forças unidas por uma perigosa semelhança. As ruínas dessa luta são herdadas e revividas – enquanto aqueles que mais sofrem continuam sendo os menos vistos, ouvidos ou reconhecidos.