O artista produziu a cenografia e o figurino para o espetáculo O guarda-chuva.
Saidiya Hartman, “Vênus em dois atos”. Revista Eco-Pós, v.23, n.3, pp.12-33, 2020.
Na encruza das artes visuais, samba, moda e macumba, Heitor dos Prazeres (1898-1966) se fez presente nas ruas da “Pequena África” carioca e nos entornos da praça XI, no Rio de Janeiro, durante a primeira metade do século 20 até o seu falecimento em 1966. Um artista multifacetado que se debruçou sobre a pintura figurativa e compôs canções de samba e cantigas de terreiro, além de ter elaborado figurinos para shows e espetáculos, como o Ballet do IV Centenário de São Paulo em 1954.1
Festejos. Rodas de samba. Mesas de bar. Brincadeiras de bairro. O dia a dia. Suas obras nos convidam a olhar a vida pulsante da população negra carioca daquele tempo, seja no contexto rural, seja nos centros urbanos. A partir da técnica de óleo/guache sobre tela, o artista expressa na maioria das obras a presença de pessoas negras em diversas situações do cotidiano, unindo a paleta de cores diversificadas a linhas bem delineadas e cheias de movimento. “Mano Heitor”, como às vezes era chamado, criou imagens de grande simbolismo e força expressiva.
Compositor nato, de letras de samba e marchas de Carnaval, o artista esteve presente na fundação de agremiações do Rio de Janeiro, como Estácio de Sá, Mangueira e Portela. Ele usou de sua intelectualidade no campo da música para desenvolver uma identidade visual singular na pintura. Os gestos pujantes presentes em sua obra pictórica, como é o caso das pessoas retratadas de cabeça erguida e com vestimentas coloridas, levaram-no a expor três trabalhos na I Bienal de São Paulo, em 1951.
“A minha pintura são coisas que passaram por mim e eu passei por elas”, enunciou Heitor dos Prazeres. Por meio de pinceladas bem definidas, o artista (a)firma a experiência negra em sua plenitude do viver. A sensibilidade no olhar de Heitor para com o seu entorno o torna um importante agente da arte afrodiaspórica. Sua pintura rompe com o arquivo da escravidão, desafiando a iconografia colonial produzida sobre o negro, seja pelos artistas europeus do século 19, seja pelos(as) pintores(as) modernistas no pós-abolição.
Sob uma perspectiva radical negra, as obras plásticas e musicais de Heitor dos Prazeres projetam uma arte que não foi circunscrita pela colonialidade e outras normas de exclusão racial. Em diálogo com a escritora Saidiya Hartman, consideramos que o artista narra uma contra-História, ofício este que “tem sido sempre inseparável da escrita de uma História do presente”.2 Em sua época, Heitor foi um multiartista que prenunciou debates da nossa contemporaneidade, ao olhar criticamente para o passado e fabular o porvir.