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6 set 2025–11 jan 2026
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Hamedine Kane

Hamedine Kane

Billy Fowo
Traduzido do inglês por Gabriel Bogossian

 

Tomando a forma de um pontão, Les Ressources: Acte-#2 [Recursos: Ato-#2] (2025) é uma instalação monumental de tipo escultural realizada pelo artista Hamedine Kane e seu colaborador Boris Raux (da School of Mutants) e desenvolvida a partir de pesquisas conduzidas em São Paulo e Salvador. A escultura opera como uma embarcação que carrega objetos encontrados, como pedaços de madeira, cordas e galões, evocações dos barcos que navegam em mar aberto e, por extensão, de atividades pesqueiras. Coletados de diversas áreas do litoral brasileiro, esses materiais compõem o cerne de grandes pinturas e formam uma colagem, apresentada ao lado de relatos de comunidades pesqueiras, obtidos a partir de trabalho de campo.

Les Ressources: Acte-#2 é continuação de uma obra semelhante, apresentada anteriormente em Dacar, Senegal, e se inscreve na investigação em processo realizada por Kane sobre a extração abusiva de recursos, particularmente de espécies marinhas nas costas do Senegal e do Brasil. Por meio de uma documentação textual e visual meticulosa desses processos, o artista apresenta um material instigante, que aborda a destruição gradual da biodiversidade nessas regiões. De acordo com pesquisas conduzidas por diversos jornalistas que cobrem pautas ambientais, a pesca predatória dizimou populações de peixes da costa brasileira, levando à quase extinção de certas espécies. Possibilitadas por uma regulação fraca, a sobrepesca e a extração ilegal de espécies marinhas por companhias multinacionais que exploram a costa brasileira exauriram ecossistemas e prejudicaram os padrões de vida de comunidades locais, forçando o deslocamento de pequenos pescadores que dependiam do mar. Essas ações também impactaram significativamente a segurança alimentar e o equilíbrio ambiental. Além disso, a instalação destaca a competição desproporcional estabelecida contra comunidades locais de pescadores artesanais, vítimas diretas de tal exploração de recursos abusiva e extrativista.

Apresentada em São Paulo no contexto da Bienal, Les Ressources: Acte-#2 é de enorme relevância para o momento atual, uma vez que fornece uma plataforma de interlocuções cruzadas que lança luz sobre as lutas compartilhadas de comunidades pesqueiras no Senegal e no Brasil – e também sobre as ressonâncias geográficas e epistemológicas que ocorrem nos dois lados do Atlântico, entre a costa oeste da África e a América do Sul.

Billy Fowo
Traduzido do inglês por Gabriel Bogossian
Miniatura de caravela em mesa com vários objetos
Detalhe de Les Ressources: Acte-#2, de Hamedine Kane, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Mesa de madeira com vários objetos
Vista de Les Ressources: Acte-#2, de Hamedine Kane, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Parede com quadro e vários objetos pendurados
Vista de Les Ressources: Acte-#2, de Hamedine Kane, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Mesa de madeira com vários objetos
Vista de Les Ressources: Acte-#2, de Hamedine Kane, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Mesa de madeira com vários objetos
Vista de Les Ressources: Acte-#2, de Hamedine Kane, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Parede com quadro e vários objetos pendurados
Vista de Les Ressources: Acte-#2, de Hamedine Kane, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo
Homens tocando instrumentos de percussão com público assistindo
Performance Salesman Of Revolt / Le ventre de l’Atlantique, de Hamedine Kane em colaboração com Célia Reis, Jair Guilherme Filho, Cleide Aparecida Vitorino, Rodney Saint-Éloi e Saliou Seck, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Homens tocando instrumentos de percussão
Performance Salesman Of Revolt / Le ventre de l’Atlantique, de Hamedine Kane em colaboração com Célia Reis, Jair Guilherme Filho, Cleide Aparecida Vitorino, Rodney Saint-Éloi e Saliou Seck, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Homen tocando instrumentos de percussão
Performance Salesman Of Revolt / Le ventre de l’Atlantique, de Hamedine Kane em colaboração com Célia Reis, Jair Guilherme Filho, Cleide Aparecida Vitorino, Rodney Saint-Éloi e Saliou Seck, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Homens tocando instrumentos de percussão
Performance Salesman Of Revolt / Le ventre de l’Atlantique, de Hamedine Kane em colaboração com Célia Reis, Jair Guilherme Filho, Cleide Aparecida Vitorino, Rodney Saint-Éloi e Saliou Seck, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Homens tocando instrumentos de percussão
Performance Salesman Of Revolt / Le ventre de l’Atlantique, de Hamedine Kane em colaboração com Célia Reis, Jair Guilherme Filho, Cleide Aparecida Vitorino, Rodney Saint-Éloi e Saliou Seck, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de um homem vestido de azul com as mãos juntas e livros na cabeça em frente a uma obra que lembra um píer e pessoas em volta recitando poemas
Registro da performance Salesman of Revolt / Le ventre de l’Atlantique [Marinheiros da revolta/O ventre do Atlântico] realizada por Hamedine Kane em colaboração com Célia Reis, Jair Guilherme Filho, Cleide Aparecida Vitorino, Rodney Saint-Éloi e Saliou Seck na 36ª Bienal de São Paulo © Levi Fanan / Fundação Bienal de São Paulo

Hamedine Kane (Nouakchott, 1983. Vive em Bruxelas, Paris e Dacar) é artista visual e cineasta. Com formação em biblioteconomia e estudos do livro, desenvolve uma prática que abrange vídeo, fotografia, performance e instalação, com foco em migração, fronteiras e saberes pós-coloniais. Dirigiu La Maison Bleue (2020), filme selecionado por festivais como IDFA (Amsterdã), Cinéma du Réel (Paris) e RIDM (Montréal). É cofundador de L’École des Mutants, projeto colaborativo que investiga futuros decoloniais a partir da educação e da memória utópica. Participou de exposições na Villa Medici (Roma), Gropius Bau (Berlim), Cité des Arts (Paris) e nas bienais de Berlim, Dacar, Bamako, Liubliana e Kaunas.

Esta participação tem apoio do Institut français através do programa IF Incontournable, Villa Médicis x Fondation Louis Roederer e Instituto Sacatar

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