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6 set 2025–11 jan 2026
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Dorothée Munyaneza

Dorothée Munyaneza

Benjamin Seroussi e Daniel Blanga Gubbay
Traduzido do inglês por Sylvia Monasterios

 

O boxe sempre foi mais do que punhos. Nas mãos de Dorothée Munyaneza e do Boxe Autônomo, ele se torna escuta, linguagem para o não dito, modo de estar junto na tensão e no cuidado. Essa noite compartilhada coloca em diálogo duas práticas distintas, mas sintonizadas – uma nascida da poética diaspórica dos palcos, outra da pedagogia cotidiana da Casa do Povo.

No centro está Version(s) [Versõe(s)] (2025), obra da artista ruandesa-britânica Dorothée Munyaneza, criada em conversa com Christian Nka, ex-pugilista dos subúrbios de Marselha, e o músico Ben LaMar Gay, de Chicago. Entre retrato e invocação, a peça navega pelo espaço carregado em meio a sobrevivência e transmissão. No ringue, em movimento, Munyaneza busca o que a história não registrou: gestos passados em silêncio, saberes guardados na memória muscular, as contradições da masculinidade forjada sob pressão. A luta não é encenada – é desmontada, ressignificada, acolhida.

Se em Version(s) o ringue vira palco, na Casa do Povo ocorreu o inverso. Desde 2016, o Boxe Autônomo transformou o centro cultural em academia antifascista. Nascido do desejo de resgatar o boxe do machismo e da institucionalização, o grupo surgiu em aulas itinerantes por ocupações e favelas até se tornar parte viva da arquitetura da Casa do Povo, com treinos diários que se mesclam harmoniosamente ao ritmo do prédio, ecoando sua história de pedagogia radical e prática coletiva. O ringue vira espaço democrático: aberto, poroso e autogerido, onde corpos renegociam seu lugar.

O encontro com Munyaneza não busca fundir essas práticas, mas colocá-las lado a lado para observar o que ressoa no silêncio compartilhado antes do movimento, na respiração após o contato. Tudo se desdobrará em alguns dias de oficina e em duas noites em que Version(s) será apresentada em montagem especial, contaminada pelo Boxe Autônomo e seguida de diálogo coletivo. O boxe, tão associado à dominação, transforma-se em outra coisa: território de relação, ruptura e reparo. Entre os subúrbios de Marselha e o bairro do Bom Retiro em São Paulo, entre arte e prática cotidiana, entre história pessoal e reinvenção coletiva.

Benjamin Seroussi e Daniel Blanga Gubbay
Traduzido do inglês por Sylvia Monasterios
Foto de um homem sentado num palco com uma iluminação traseira.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de um homem deitado num palco com uma iluminação traseira.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de um homem em posição de luta num palco com uma iluminação traseira.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de um homem em posição de luta num palco com uma iluminação traseira.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de um homem sentado num palco com uma iluminação traseira.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de um homem rabiscando com giz um palco com uma iluminação traseira.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Foto de duas pessoas num palco em momento de agradecimento.
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo
Performance Version(s), de Dorothée Munyaneza com Christian Nka, parte do Ato II de Ensaio Geral, Afluente da 36ª Bienal de São Paulo, na Casa do Povo © Iza Guedes / Fundação Bienal de São Paulo

Dorothée Munyaneza (Kigali, 1982. Vive em Marselha) é uma artista multidisciplinar que trabalha com música, canto, texto e movimento para lidar com a ruptura como força criativa e gerar espaços de escuta e esperança. Em sua obra e em colaborações com outros artistas, tece narrativas que revelam memórias silenciadas e feridas da história. Sua prática celebra vozes marginalizadas e atua como gesto de transmissão. Munyaneza é artista associada ao Chaillot – Théâtre National de la Danse (Paris), à Maison de la Danse e à Biennale de la Danse (Lyon). Em 2023, recebeu o Prêmio Europeu de Dança Salavisa.

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