Darby English, 1971: A Year in the Life of Color. Chicago: University of Chicago Press, 2016, p.8.
A pintura de Cynthia Hawkins é um caso profundo de experimentação na arte, manifestada de um modo particular em cada um de seus trabalhos, igualmente diferentes e diversificados em sua unidade criativa, como um exercício que se realiza continuamente a fim de, talvez, desenvolver habilidade ou criar repertório e vocabulário daquilo pelo qual se tem interesse. Movimento e processo de evolução são dois processos que guiam a artista de modo contínuo, desenvolvidos desde os anos 1970.
O interesse da artista é, principalmente, pela abstração – não apenas pela prática da pintura abstrata, mas pela abstração em si. Essa relação é longeva, sendo também um ato de resistência, na medida em que a abstração, para ela, requer um olhar demorado e atencioso por parte do espectador.
Com uma produção artística que abrange mais de cinco décadas, Hawkins vivenciou um período do contexto artístico estadunidense no qual “a abstração realizou um trabalho crucial dentro e sobre os fluxos da cultura negra, ao abri-la à mesma contingência que fragmentava a cultura do modernismo, provendo-a de linguagens visuais e verbais para desvios – linguagens que se distanciavam de referências tangíveis identificáveis com a política de massa”1. Sua produção e sua própria atuação nesse cenário podem ser consideradas em um ambiente maior de abstração, comunidade e negritude.
Os elementos que compõem as pinturas de Hawkins – linhas, formas, cores – foram e ainda são desdobramentos vivos de desenhos anteriores, como notações matemáticas e referências algébricas, praticadas na superfície da tela. Com o tempo, foram transformando-se em outras situações e campos perpassados pela abstração – como a ciência, a literatura, a filosofia e a música –, sempre em direção à abstração geométrica e orgânica.
Não é à toa que trabalhos históricos como Air Smart (1975) e Stars that Fell into the Sea [Estrelas que caíram no mar] (1975) tenham sido assim intitulados. Tal noção de abstração geométrica vem do trabalho com a matéria da pintura, no sentido de investigação, por exemplo, da profundidade da tela, em que o peso e a leveza dos elementos posicionados tanto se adensam quanto flutuam.