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6 set 2025–11 jan 2026
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Camille Turner

Camille Turner

Ariana Nuala

 

Afrofuturismo, fabulação crítica e pesquisa histórica se entrecruzam no trabalho de Camille Turner para desestabilizar narrativas coloniais e construir novas possibilidades de existência. Em DreamSpace [Espaço de sonho] (2025), que ela estreia na 36a Bienal, a artista propõe uma instalação sonora imersiva que conduz o público a um estado meditativo e fabulatório. O trabalho se ancora na metodologia afronáutica desenvolvida por Turner, que propõe caminhar, sentir, imaginar e responder aos vestígios da história. A obra ativa um espaço onde a memória ancestral não é apenas evocada, mas experimentada como pulsação e fluxo, atravessando corpos e tempos.

A condução da meditação não se limita à introspecção, mas sugere um deslocamento perceptivo: um canal que amplia a presença e transforma as relações com o tempo e o espaço. O ato de sonhar, entendido aqui como matéria, altera o que parecia estável e modifica a própria respiração do mundo. A instalação opera como um portal, guiando os participantes a uma experiência na qual as fronteiras entre passado, presente e futuro são continuamente redimensionadas. Ela nos diz: “Lembre-se do futuro”. Há uma voz e também um som que nos guiam, os quais conduzem quem escuta a uma viagem não menos abstrata do que a própria criação do negro. A fabulação aqui não é apenas narrativa, mas vibração e deslocamento. A escuta se torna matéria flexível, um campo de forças em que memórias são criadas, o corpo se reorganiza e o tempo se dobra sobre si mesmo.

DreamSpace convida a um movimento invertido: é do presente que se emite uma transmissão. Nessa obra, habitamos um mundo em que a opressão foi superada e o sonho da libertação se realizou – um mundo moldado por sonhadores que são, eles próprios, projeções de sonhos. Assim, somos chamados a transmitir esse sonho coletivo àqueles que ainda lutam no passado e a comunicar aos sonhadores do futuro que a libertação não é apenas possível, mas iminente. Sonhar é o caminho.

O refúgio, longe de significar uma fuga, manifesta-se como uma tecnologia de permanência, uma forma de preservar e prolongar existências que, de outra forma, seriam apagadas. Em DreamSpace, a composição sonora não apenas conduz, mas reformula a relação com o presente, criando fendas pelas quais o impossível pode se insinuar. Como um chamado que reverbera além do tempo, a obra nos lembra que a imaginação não é apenas um motor de transformação do real, mas um campo onde futuros são moldados, inscritos e continuamente cultivados.

Ariana Nuala
Sala escura com espreguiçadeiras de metal, com luz baixa em led vermelho e azul
Vista de DreamSpace, de Camille Turner, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Sala escura com espreguiçadeiras de metal, com luz baixa em led vermelho e azul
Vista de DreamSpace, de Camille Turner, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Sala escura com espreguiçadeiras de metal, com luz baixa em led vermelho e azul
Vista de DreamSpace, de Camille Turner, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Sala escura com espreguiçadeiras de metal, com luz baixa em led vermelho e azul
Vista de DreamSpace, de Camille Turner, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo
Sala escura com espreguiçadeiras de metal, com luz baixa em led vermelho e azul
Vista de DreamSpace, de Camille Turner, durante a 36ª Bienal de São Paulo © Natt Fejfar / Fundação Bienal de São Paulo

Camille Turner (Kingston, 1960. Vive em Los Angeles) é uma artista e pesquisadora cuja prática combina afrofuturismo e pesquisa histórica. Seus trabalhos recentes abordam a participação do atual território canadense no tráfico transatlântico de africanos, propondo uma reinterpretação dos arquivos coloniais a partir de um futuro negro emancipado. Desenvolveu o conceito de metodologia afronáutica e é doutora pela York University, com pós-doutorado na University of Toronto. Sua obra foi reconhecida com o Artist Prize da Bienal de Toronto (2022) e integra coleções públicas e privadas no Canadá e internacionalmente.


Esta participação tem apoio do Canada Council for the Arts.