Afrofuturismo, fabulação crítica e pesquisa histórica se entrecruzam no trabalho de Camille Turner para desestabilizar narrativas coloniais e construir novas possibilidades de existência. Em DreamSpace [Espaço de sonho] (2025), que ela estreia na 36a Bienal, a artista propõe uma instalação sonora imersiva que conduz o público a um estado meditativo e fabulatório. O trabalho se ancora na metodologia afronáutica desenvolvida por Turner, que propõe caminhar, sentir, imaginar e responder aos vestígios da história. A obra ativa um espaço onde a memória ancestral não é apenas evocada, mas experimentada como pulsação e fluxo, atravessando corpos e tempos.
A condução da meditação não se limita à introspecção, mas sugere um deslocamento perceptivo: um canal que amplia a presença e transforma as relações com o tempo e o espaço. O ato de sonhar, entendido aqui como matéria, altera o que parecia estável e modifica a própria respiração do mundo. A instalação opera como um portal, guiando os participantes a uma experiência na qual as fronteiras entre passado, presente e futuro são continuamente redimensionadas. Ela nos diz: “Lembre-se do futuro”. Há uma voz e também um som que nos guiam, os quais conduzem quem escuta a uma viagem não menos abstrata do que a própria criação do negro. A fabulação aqui não é apenas narrativa, mas vibração e deslocamento. A escuta se torna matéria flexível, um campo de forças em que memórias são criadas, o corpo se reorganiza e o tempo se dobra sobre si mesmo.
DreamSpace convida a um movimento invertido: é do presente que se emite uma transmissão. Nessa obra, habitamos um mundo em que a opressão foi superada e o sonho da libertação se realizou – um mundo moldado por sonhadores que são, eles próprios, projeções de sonhos. Assim, somos chamados a transmitir esse sonho coletivo àqueles que ainda lutam no passado e a comunicar aos sonhadores do futuro que a libertação não é apenas possível, mas iminente. Sonhar é o caminho.
O refúgio, longe de significar uma fuga, manifesta-se como uma tecnologia de permanência, uma forma de preservar e prolongar existências que, de outra forma, seriam apagadas. Em DreamSpace, a composição sonora não apenas conduz, mas reformula a relação com o presente, criando fendas pelas quais o impossível pode se insinuar. Como um chamado que reverbera além do tempo, a obra nos lembra que a imaginação não é apenas um motor de transformação do real, mas um campo onde futuros são moldados, inscritos e continuamente cultivados.