Bertina Lopes (1924-2012), nascida em Moçambique, foi uma pioneira do modernismo africano, introduzindo uma fusão de formas que refletiam sua realidade política como mulher negra em meio à guerra e ao exílio. Sua obra é marcada pela subversão de estilos e gêneros, brincando com princípios do surrealismo, cubismo, abstração e pintura gestual, sempre atravessada por uma liberdade estilística que desafia definições. Ela era profundamente ligada aos movimentos políticos moçambicanos, e suas primeiras pinturas revelam um surrealismo melancólico enraizado no anseio pela independência. Esses trabalhos iniciais apresentam uma figuração gestual que evoca o cotidiano sombrio dos moçambicanos sob a dominação colonial.
A abstração da figura já aparecia em sua prática desde cedo. A guerra civil que se seguiu à independência de Moçambique, em 1975, só reforçou as referências de Lopes à abstração modernista, e suas composições ganharam perspectivas dinâmicas e maior carga simbólica. Exilada em Roma durante grande parte da vida, a artista manteve um compromisso inabalável de explorar a identidade moçambicana sob regimes políticos opressivos.
Esse diálogo com o simbolismo e a identidade cultural africana, apesar da distância física do continente, manifesta-se, por exemplo, na presença de totens de comunidades africanas em sua obra, colocando a contribuição de sua terra natal no centro de uma produção marcada por um caráter vanguardista.
Lopes sempre esteve um passo à frente dos movimentos modernistas. Ela trabalhou com elementos do impressionismo e do cubismo, estilos outrora considerados europeus. Ao desconstruir, borrar, abstrair e ressignificar os arquétipos do simbolismo africano, sua obra permanece enigmática, desafiando as categorizações rígidas do formalismo, como se pode ver nas pinturas expostas na 36a Bienal de São Paulo.
Essa não é a primeira vez que Bertina Lopes é convidada a participar da Bienal. Ela foi incluída na 7a edição, em 1963, mas recusou-se veementemente a participar sob a representação nacional de Portugal, o país colonizador. Essa postura firme ecoa agora em sua atual participação, a maior exposição da artista já realizada no Brasil.