“Deficiência não se limita aos fenômenos do corpo; a deficiência é política”. É assim que Berenice Olmedo se posiciona, enquanto “corpo com capacidade”, quando questionada por Jane Ursula Harris no artigo “Berenice Olmedo: The Myth of Autonomy” [Berenice Olmedo: o mito da autonomia], publicado na revista Flash em 2022. Olmedo é uma artista, pesquisadora e contadora de histórias cuja prática questiona as estruturas de normatividade, capacitismo, classe e objetificação como imposições de poder e hierarquia. Seu trabalho foca na deficiência, nas diferenças e na alteridade como métodos para dar visibilidade aos marginalizados e confrontar o apagamento das existências crip. Através de publicações, esculturas, objetos cinéticos e instalações, ela explora a deficiência como antropogênese, as estruturas políticas e sociais de homogeneização e as desigualdades da biopolítica. Suas obras expõem com crueza os medos e aversões sociais às diferenças, investigando o uso da tecnologia como mediação do corpo.
Como voluntária no CRIT (Centro de Reabilitação e Inclusão Infantil Teletón), espaço dedicado a crianças com deficiências neuromusculares, a artista está em sintonia com as vivências, saberes e perspectivas de pessoas com deficiência. Utilizando materiais médicos, órteses e próteses, coletadas em oficinas ortopédicas ou adquiridas no mercado de pulgas do bairro de Iztapalapa, na Cidade do México, Olmedo transforma esses objetos utilitários em esculturas. Nesse processo, pratica a narrativa como ativismo, o que a acadêmica queer e mad racializada Shayda Kafai descreveu em Crip Kinship [Afinidade Crip] como histórias difíceis de digerir e gestos ativistas de recordação. Essa dimensão de memória e celebração é evidente no título de suas obras, especialmente na série Anthroprosthetic [Antroprótese] (2018), na qual os objetos e acessórios, como sapatilhas de balé, recebem o nome dos pacientes infantis que os usaram. Assim, Olmedo honra corpos crip e amplia noções de existência impossíveis de subsistir dentro de uma estrutura capitalista de produtividade ou utilidade.
Em entrevistas e textos, Olmedo afirma que “o humano é inteiramente protético” e provoca o público a refletir sobre como habitar e pensar uma existência não normativa. Para sua exposição Eccéite [Hecceidade] (2022), ela escreveu que essa existência dissidente, também conhecida como existência crip, “cria possibilidades que nos permitem pensar em nós [seres humanos] mais como seres viventes do que como humanos”. Se conseguirmos mudar nossa perspectiva para a de seres viventes em sintonia com existências crip, podemos vislumbrar modos radicais de existir que florescem e resistem para além das estruturas capitalistas de normatividade e capacitismo.