Alberto Pitta desenvolve há mais de quatro décadas uma produção visual que transita entre os saberes e fazeres de culturas afro-brasileiras, a espiritualidade e a experimentação gráfica. O tecido, suporte primordial em sua obra, apresenta-se como uma plataforma de educação não hegemônica, criando conexões entre arte, história e experiência coletiva. Essa relação se inscreve em sua trajetória como um legado familiar. Filho de Mãe Santinha de Oyá – fundadora do Ilê Axé Oyá, no bairro de Pirajá, em Salvador, além de líder espiritual, educadora e bordadeira –, Pitta cresceu entre as práticas do candomblé, existencialmente artísticas.
Desde os anos 1980, sua atuação consolidou uma linguagem visual própria no Carnaval negro baiano, sublinhada pela criação de estampas e figurinos para blocos como Ilê Aiyê (Band’Aiyê), Olodum, Filhos de Gandhy, Oba Laiyê e o Afoxé Filhos do Congo. Em 1998, fundou o Cortejo Afro, expandindo sua pesquisa estética e reafirmando o têxtil como elemento central de sua prática artística. Um de seus traços mais característicos é o uso do branco sobre branco, embora o entrelaçamento de diversas cores e a sobreposição de camadas e padrões também se façam presentes em suas criações, produzindo ritmos visuais que evocam narrativas em uma esfera comunitária e simbólica.
Para além do Carnaval, sua produção borra os limites do design têxtil, fortalecido pelo método de estamparia por serigrafia, dialogando com o campo da arte contemporânea e desdobrando-se entre a pintura e as experimentações escultóricas. Com uma múltipla presença internacional, sua obra circula por diversas instituições de arte, estabelecendo conexões que ultrapassam fronteiras geográficas e conceituais. Seus tecidos, que transitam entre o rito e a arte da memória, fazem parte de um repertório visual que pode ser compreendido como afro-atlântico, no qual padrões, símbolos e gestos mantêm diálogos entre Brasis, Áfricas e suas diásporas.
Parte de um processo de trabalho que se dá no fazer compartilhado, em que a trama do tecido se entrelaça com a da comunidade que o veste, seja no ateliê do artista – espelhado no Pavilhão Ciccillo Matarazzo da 36a Bienal de São Paulo –, nos blocos afro pelas ruas de Salvador ou nas galerias, os tecidos e as histórias de Pitta seguem narrando – vivos, em movimento, vestindo corpos e atravessando tempos.