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6 set 2025–11 jan 2026
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Aislan Pankararu

Aislan Pankararu

Caio Bonifácio

 

Os deslocamentos, encontros e distanciamentos são substratos férteis para a obra de Aislan Pankararu. A biografia do artista revela diversos movimentos marcantes: da comunidade Pankararu de Petrolândia, no interior de Pernambuco, para Brasília; e, posteriormente, de Brasília para São Paulo, onde reencontra os Pankararu organizados na comunidade Real Parque. Esses deslocamentos implicam um distanciamento parcial da cultura Pankararu e um posterior reencontro com ela, este atravessado por outras experiências.

Sua produção inicial lida com a prática do desenho e traz representações dos praiás – vestimentas feitas de palha que constituem a manifestação física dos Encantados, entidades cultuadas pelos Pankararu. Essas entidades habitavam as cachoeiras que cercavam o território desse povo, mas que foram destruídas pelas inundações decorrentes da construção da barragem de Itaparica, no rio São Francisco, em 1988. O mistério fundamental para a organização prática e simbólica Pankararu passou a buscar outras manifestações.

Afastando-se da representação figurativa, Aislan pinta formas inspiradas na pintura corporal tradicional de seu povo, utilizando a argila branca sobre o nada convencional papel kraft – um suporte que repõe a relação cromática entre a tinta branca e a pele escura. Bolinhas, formas circulares e cruzes – parte do repertório gráfico da pintura Pankararu – repetem-se em um cosmos próprio. É possível observar e se deixar levar pelos padrões que se formam e parecem movimentar-se sobre a superfície do papel, do algodão, do couro ou do linho.

A produção artística de Aislan é também uma exaltação do indígena nordestino e de seu território. Isso se revela nas formas orgânicas, pelas ramificações que sugerem florescências, pelas torções e pelas linhas pontiagudas semelhantes a espinhos, que remetem à vegetação da caatinga. A vivência do artista em aulas e laboratórios de medicina influencia sua visualidade com imagens microscópicas, que dotam os signos gráficos tradicionais de membranas, flagelos e franjas. Além do branco sobre marrom, ele incorpora cores de outros povos, resultando em uma cena complexa, de elementos coloridos e vibrantes em agitação. Mais recentemente, a obra de Aislan se desdobra também no campo tridimensional, com materiais como a palha e a cerâmica, que tomam formas semelhantes às das pinturas.

Sua produção resiste a explicações simples, pois ela instaura uma forte presença e nos obriga a estar junto. Fruto de múltiplos encontros, a obra de Aislan Pankararu sobrepõe experiências e restitui ao espaço da arte um deslocamento para o campo do mistério – frequentemente rejeitado por formas hegemônicas de viver e de pensar.

Caio Bonifácio

Aislan Pankararu (Petrolândia, 1990. Vive em Salvador) combina, em suas pinturas, práticas de cura, abstrações inspiradas em suas vivências no bioma semiárido e estudos em medicina. Participou de exposições como Histórias Indígenas (MASP, São Paulo, 2022; Kode Bergen Art Museum, 2024), além de mostras no Instituto Inhotim (Brumadinho), Museu Nacional da República (Brasília) e Itaú Cultural (São Paulo). Suas obras integram coleções como a do MASP, da J.P. Morgan (Nova York) e o acervo do Itamaraty.