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6 set 2025–11 jan 2026
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Casa do Povo

De muitas formas, o Teatro de Arte Israelita Brasileiro (TAIB) é um teatro subterrâneo. Tendo funcionado dos anos 1960 até o final da década de 1990, ele se escondia no subsolo da Casa do Povo, um refúgio clandestino para imigrantes e ativistas judeus, uma fortaleza de resistência durante a ditadura brasileira, um centro de performance experimental e um caldeirão das revoluções artísticas dos decênios de 1960 e 1970. Sua história é rica em teatro político e popular, coral e formas experimentais que sempre desafiaram os limites da performance, entre o amador e o profissional. Depois de uma inundação em 2000, o teatro ficou em silêncio por anos, e suas histórias ficaram submersas.

Ensaio geral é um programa de performance dentro da 36ª Bienal de São Paulo, desenvolvido e enraizado nesse mesmo espaço. O teatro não é apenas uma moldura, mas uma proposição: um convite para questionar e reimaginar o que o teatro pode ser, ensaiando-o em escala real, daí o nome do programa. Reabrir o TAIB não é só um ato de reivindicar o espaço, mas de reacender a pergunta: o que é o teatro e o que ele pode fazer?

Abrigando o legado da Casa do Povo, Ensaio geral se concentra em práticas muitas vezes excluídas das histórias canônicas do teatro e dos palcos institucionais. O programa mergulha em formas parateatrais, momentos em que o teatro se funde com a performatividade de desfiles, eventos esportivos e a energia subversiva do cabaré. Os artistas convidados trazem suas próprias explorações dessas práticas híbridas.

Cada gesto no programa é concebido como colaboração entre artistas estrangeiros e iniciativas locais, fomentando uma dramaturgia porosa e em evolução. A metáfora do estuário, onde mar e rio se encontram, guia esse retorno. Oficinas e encontros compartilhados com a comunidade permitem que práticas emerjam à superfície, abrindo espaço para novas conexões e trocas.

O TAIB se torna um terreno onde práticas, comunidades e temporalidades convergem. Um espaço onde o foco não está apenas no resultado, mas no processo vivo e contínuo da criação. Sempre foi um lugar onde tempo, história e comunidade se encontraram. Aqui, o que passou e o que está por vir se juntam novamente em um momento coletivo. Ensaio geral oferece um espaço para reabrir o teatro, não com formas já escritas em sua história, mas com aquelas que ficaram de fora de seu livro. É a inauguração de um teatro que ainda está por vir.

Benjamin Seroussi é curador, editor e gestor cultural em São Paulo. Atua como diretor artístico da Casa do Povo, um espaço autônomo de arte judaico-brasileiro.
Daniel Blanga Gubbay é curador de artes performativas e escritor. Desde 2018 integra a direção artística do Kunstenfestivaldesarts em Bruxelas.

 

Ato I
com Marcelo Evelin

 

Fotografia em preto e branco de um grupo de pessoas mascaradas, com as mãos levantadas, segurando uma variedade de objetos de cozinha, como panelas, tampas e colheres. Os objetos estão em posição de batuque
Marcelo Evelin
Batucada, 2014
Documentation of the creative process for the performance at Casa do Povo, São Paulo Photo: Sergio Caddah

 

O ritmo começa baixo. Um toque na pele, um murmúrio de atrito, depois outro e mais outro. Aos poucos, surge um pulso coletivo sincopado, insistente, impossível de ignorar. Nas mãos de Marcelo Evelin, a batucada não é apenas ritmo. É um encontro, uma convocação, um chamado do corpo que se recusa ao silêncio. Tudo começa na escuridão do TAIB, o teatro subterrâneo da Casa do Povo, suas paredes ainda impregnadas de ecos passados, antes de transbordar para fora em um movimento ao mesmo tempo coreográfico e político. Esse ato inaugural abre o programa da 36ª Bienal de São Paulo na Casa do Povo e reabre o TAIB com um gesto nada contido.

Natural de Teresina, Marcelo Evelin é um dos coreógrafos brasileiros com maior ressonância internacional. Seu trabalho entrelaça performance, ativismo e prática coletiva, partindo do corpo como território de inscrição social e resistência. Em Batucada, criada em 2014 e apresentada em diversos países, Evelin não propõe uma peça fixa, mas uma experiência viva: uma acumulação de ritmos, presenças e gestos que convergem para a desobediência.

Não há roteiro nem hierarquia. Batucada é uma partitura porosa, reativada a cada vez por cinquenta participantes locais. Os tambores, às vezes reais, às vezes simulados por mãos, pés, corpos, tornam-se armas de alegria e recusa. A performance cresce não pelo espetáculo, mas por contágio, convidando o público a ouvir não só com os ouvidos, mas com a respiração, com a proximidade do outro. O que começa como um ajuntamento de batidas na escuridão do teatro logo irrompe ao ar livre. Batucada rejeita o teatro como enclausuramento; a obra o propõe não como refúgio do mundo, mas como sua câmara de ressonância. A cidade não fica do outro lado da porta – é a continuação da performance, seu horizonte necessário.

Embora Evelin tenha realizado oficinas na Casa do Povo durante o processo de criação de Batucada há mais de uma década, a peça nunca havia sido apresentada em São Paulo até agora. Sua chegada é tanto retorno quanto ruptura. Inaugurar o programa desta Bienal com Batucada é um compromisso. Uma recusa a começar em silêncio. Nesse encontro entre Marcelo Evelin, a Casa do Povo e os corpos e ritmos de São Paulo, Batucada deixa de ser apenas uma performance para se tornar um recomeço.

Ato II
com Boxe Autônomo e Dorothée Munyaneza

 

Uma performance de boxe, com quatro jovens boxeadores, eles usam capacetes de boxe, regatas, bermudas e tênis esportivos (três de roupas azuis, ao centro e à esquerda e um com roupas vermelhas, à direita). Todos estão em posição de combate, dois boxeadores, à direita da imagem, estão em um confronto, mais ao centro um está de costas, em confronto com o boxeador da esquerda. Ao fundo, eles são observados por um público diverso, em um ambiente de paredes brancas e vigas de concreto.
Boxe Autônomo
Foto: Gustavo Moita

 

O boxe sempre foi mais do que punhos. Nas mãos de Dorothée Munyaneza e do Boxe Autônomo, ele se torna escuta, linguagem para o não dito, modo de estar junto na tensão e no cuidado. Essa noite compartilhada coloca em diálogo duas práticas distintas, mas sintonizadas – uma nascida da poética diaspórica dos palcos, outra da pedagogia cotidiana da Casa do Povo.

No centro está Version(s) [Versõe(s)] (2025), obra da artista ruandesa-britânica Dorothée Munyaneza, criada em conversa com Christian Nka, ex-pugilista dos subúrbios de Marselha, e o músico Ben LaMar Gay, de Chicago. Entre retrato e invocação, a peça navega pelo espaço carregado em meio a sobrevivência e transmissão. No ringue, em movimento, Munyaneza busca o que a história não registrou: gestos passados em silêncio, saberes guardados na memória muscular, as contradições da masculinidade forjada sob pressão. A luta não é encenada – é desmontada, ressignificada, acolhida.

Se em Version(s) o ringue vira palco, na Casa do Povo ocorreu o inverso. Desde 2016, o Boxe Autônomo transformou o centro cultural em academia antifascista. Nascido do desejo de resgatar o boxe do machismo e da institucionalização, o grupo surgiu em aulas itinerantes por ocupações e favelas até se tornar parte viva da arquitetura da Casa do Povo, com treinos diários que se mesclam harmoniosamente ao ritmo do prédio, ecoando sua história de pedagogia radical e prática coletiva. O ringue vira espaço democrático: aberto, poroso e autogerido, onde corpos renegociam seu lugar.

O encontro com Munyaneza não busca fundir essas práticas, mas colocá-las lado a lado para observar o que ressoa no silêncio compartilhado antes do movimento, na respiração após o contato. Tudo se desdobrará em alguns dias de oficina e em duas noites em que Version(s) será apresentada em montagem especial, contaminada pelo Boxe Autônomo e seguida de diálogo coletivo. O boxe, tão associado à dominação, transforma-se em outra coisa: território de relação, ruptura e reparo. Entre os subúrbios de Marselha e o bairro do Bom Retiro em São Paulo, entre arte e prática cotidiana, entre história pessoal e reinvenção coletiva.

Ato III
com Alexandre Paulikevitch e MEXA

 

MEXA, A última ceia, 2024
Fotografia
Foto: Laysa Elias

 

Um ombro gira, deliberado; um olhar prolongado, depois rompido. O cabaré não começa com fanfarras, mas com uma mudança de atenção: para o corpo, seus códigos, sua recusa em se manter na linha. Com frequência menosprezado como forma menor, o cabaré historicamente se tornou território teatral da dissidência, da exploração de gênero e do que não podia ser dito de outro modo. Na Casa do Povo, o cabaré carrega sua própria linhagem, enraizada não só na história do teatro político da casa, mas também nas tradições da diáspora judaica, em que a sátira, o canto e o palco se tornaram formas de sobrevivência e crítica. Nesse encontro singular, Alexandre Paulikevitch e MEXA trazem seu trabalho contemporâneo sobre o cabaré, mantendo a energia dessa forma não como sedução, mas como inquietação.

Paulikevitch, nascido e radicado em Beirute, é um dos poucos artistas homens que trabalham com a tradição do baladi, frequentemente reduzido pelo olhar colonial à “dança do ventre”, fazendo disso um ato de reclamação política. Sua dança é lenta, sinuosa, atenta ao olhar que tenta fixá-la. Por meio de quadris, respiração e repetição, ele desfaz as camadas de orientalismo e homofobia que historicamente tentaram disciplinar sua forma.

Seu trabalho abre espaço para a suavidade como estratégia, a sensualidade como resistência e a ambiguidade como verdade. Assistir a suas performances é perceber o quão profundo é o arquivo do corpo e quanto precisa ser dançado para fora dele.

Nascido das ruas e abrigos de São Paulo, MEXA é um coletivo forjado na urgência. Investigando a criação de ficções a partir de identidades próprias, o grupo composto majoritariamente de pessoas trans e queer foi moldado pela negligência e violência do Estado brasileiro. MEXA cria formas teatrais, na Casa do Povo e em turnês internacionais. Cantando, fazendo playback, encenando, criam reelaborações barulhentas e indisciplinadas de mitos pessoais e coletivos.

Neste projeto concebido para a 36ª Bienal de São Paulo, fruto de residência compartilhada, Paulikevitch e MEXA apresentam duas noites de práticas e narrativas entrelaçadas: corpos que se afastam ou insistem em ser vistos; identidades que se transformam em coreografias, improvisadas, relacionais, com a consciência de que o teatro deve permanecer inacabado, poroso ao desejo e ao ruído do presente. Juntos, ressignificam o cabaré como forma nascida à margem das instituições, sempre excessiva, queer e barulhenta demais. Com eles, o cabaré se torna o que sempre ameaçou ser: um ensaio para outro modo de estar juntos.

Este ato é apoiado pelo Goethe-Institut.